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Mais Mulheres Por Favor

30
Mar18

[LIVROS] | Mulheres

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Mulheres é um livro que reúne ilustrações e textos de Carol Rossetti, ilustradora brasileira, e que visa representar um diverso grupo de mulheres sob diversos pontos de vista, que vão desde o corpo à identidade, passando pelos relacionamentos e histórias de superação.

Não sou a pessoa que vai determinar o que é ou não é feminismo: eu tenho uma voz, mas não sou a voz do movimento. Eu falo apenas sobre como decidi lutar por um mundo melhor através do meu trabalho e ressalto que o meu modo não é a única maneira válida de luta.

Um dos meus autores preferidos, José Saramago, uma vez disse: "Aprendi a não convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro." Creio que seja uma das coisas mais sábias já ditas e também das mais difíceis de serem aprendidas. O que proponho é isto: vamos conversar e aprender uns com os outros, mas sem colonizar o próximo.

 

As ilustrações e os textos que as acompanham formam no seu todo uma mensagem muito importante no que diz respeito à inclusão: somos livres de nos vestirmos livremente, de assumirmos as características do nosso corpo abertamente, sem ter receio do preconceito e dos olhares inquisitivos dos outros, somos livres de escolher com quem nos relacionamos e de seguirmos a profissão que desejarmos. Somos livres.

 

Não ter vergonha de usar calções curtos ou de exibir o corpo na praia pode parecer uma coisa básica actualmente, mas ainda há muitas de nós que vivem este e outro tipo de angústias. Por isso, é tão importante existir um livro que reforça que não precisamos de mudar o nosso corpo para nos sentirmos bem, não temos de nos sentir desconfortáveis com certas características nossas e que devemos ignorar olhares indiscretos, que qualquer que seja nossa identidade merecemos respeito e tolerância e, sobretudo, muito amor-próprio

 

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Carol Rossetti criou um livro que todas as mulheres deveriam ler e guardar junto de si, porque pode (e deve) ser lido em diversas etapas da vida. Mulheres deve ser partilhado com as mulheres da nossa geração, mas também com as futuras gerações, para que as nossas irmãs, amigas, filhas e netas cresçam livres, de mente aberta, valorizando-se e respeitando o próximo.

 

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28
Mar18

[LIVROS] | Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes

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Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes deixa-nos com vontade de devorar rapidamente cada uma das histórias de 100 mulheres magníficas, ao mesmo tempo que desejamos que nunca termine. Boa notícia: já se encontra editado em Portugal o segundo volume, com mais 100 mulheres incríveis para conhecer. Cada história é acompanhada por uma ilustração da mulher em destaque (todas feitas por mulheres), duas das quais são da autoria da portuguesa Helena Morais Soares (Frida Kahlo e Miriam Makeba).

 

A história de cada uma destas 100 mulheres, que foram escritoras, pintoras, activistas, desportistas, cientistas, entre muitas outras coisas, mostra que qualquer uma de nós (miúdas e mulheres) pode e é capaz de qualquer coisa. Não há entraves ao nosso desenvolvimento e sucesso: basta querermos.

 

Este tipo de livro faz todo o sentido enquanto ainda houver preconceito em relação à qualidade do que é produzido pelas mulheres, enquanto houver salários desiguais, desigualdade de oportunidades, etc. Faz sentido porque as raparigas rebeldes se vão sentir confiantes no seu futuro, ignorando todos os que lhe dizem que não serão capazes ou que algo não foi feito para mulheres. Assim como também faz sentido para os rapazes rebeldes pois vão perceber que podem caminhar lado a lado com mulheres incríveis, sem necessidade de diminuí-las.

 

Comprem-no para as vossas filhas e filhos, sobrinhas e sobrinhos, afilhadas e afilhados, até para vocês (como foi o meu caso), e mantenham-no por perto, para que nunca nos esqueçamos de mulheres como Alfonsina Strada (ciclista), Amna Al Haddad (halterofilista), Claudia Ruggerini (resistente antifascista), Eufrosina Cruz (ativista e política), Grace O'Malley (pirata), Irena Sendlerowa (heroína de guerra), Jessica Watson (velejadora), Kate Sheppard (sufragista), Lella Lombardi (piloto de fórmula 1), Manal Al-Sharif (ativista pelos direitos das mulheres), Mary Anning (paleontóloga), Matilde Montoya (médica), Maya Angelou (escritora), Nellie Bly (repórter), Ruth Bader Ginsuburg (juíza do supremo tribunal), Sonita Alizadeh (rapper), Wang Zhenyi (astrónoma), Xian Zhang (maestrina), Yaa Asantewaa (rainha guerreira), Zaha Hadid (arquiteta).

 

27
Mar18

[LIVROS] | Estar em Casa

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O mais recente livro de Adília Lopes chegou-me às mãos juntamente com Bandolim já que as saudades eram tantas que um só livro não bastava - Dobra está a aguardar pela Feira do Livro de Lisboa, onde conto comprar mais livros de poesia escritos por mulheres para dar continuidade ao #lerpoesia.

 

Estar em Casa tem um título auspicioso, contudo fiquei muito decepcionada quando constatei que tinha tão poucas páginas (falha minha que não consultei a ficha técnica). Menos de 100 páginas é pouco para saborear a escrita de Adília, algo que só ultrapassei porque li Estar em Casa com um dia de diferença de Bandolim, então, foi como se tivesse lido um só livro que podia continuar a ler todos os dias até ao fim dos tempos, já que Adília é inesgotável.

 

Apesar do número reduzido de páginas, Adília Lopes continua a deliciar-nos com aquilo que sabe fazer tão bem: deixa-nos de sorriso no rosto, numa tranquilidade, paz e seneridade tão características, que podíamos reconhecê-la de olhos fechados.

 

Só gosto das pessoas boas

quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy

sei lá o quê

se não são boas pessoas

não prestam

 

Escreve poemas, pequena

escreve poemas

e come chocolates

e que os poemas

sejam como chocolates

 

"Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates."

Fernando Pessoa

 

23
Mar18

[LIVROS] | A Porta

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A escritora húngara Magda Szabó criou uma verdadeira obra-prima do século XX. Já adivinhava a qualidade de A Porta (editado pela Cavalo de Ferro, o Prémio Fémina, as críticas...), mas este livro conseguiu superar as minhas expectativas e surpreender-me. Demorei algum tempo a escrever esta opinião e, neste preciso momento, ainda não tenho a certeza de como vou expôr o que penso sobre este livro e o que me fez sentir, tal foi o seu impacto.

 

É intenso, humano, um novelo que vamos desvendando a cada página, apesar de já sabermos de antemão que a narradora se considera culpada pela morte de Emerence. A Porta foca-se na relação entre duas mulheres, a narradora, Magda, uma escritora que se viu impedida de publicar pelo regime durante vários anos, mas que subitamente volta ao activo (vários são os paralelismos entre a narradora e a própria autora), e Emerence, a sua mulher-a-dias durante cerca de vinte anos.

Hoje, sei o que então ignorava, que não podemos exprimir os afectos de uma forma adquirida, canalizada, articulada, e que não posso determinar a sua forma no lugar de quem quer que seja.

Emerence é uma mulher peculiar, tem uma força incrível apesar da sua idade avançada, trabalha em diversas casas e como porteira, realizando tarefas árduas como ninguém, sem um queixume. Apesar de ser analfabeta e de não ter qualquer interesse pela cultura, religião ou política (para ela, qualquer profissão que não envolva esforço físico não é digna desse nome), Emerence não deixa que ninguém se atravesse no seu caminho, é ela que escolhe os patrões e não o oposto. Ninguém está autorizado a entrar na sua casa e há um grande mistério em torno do que há dentro da sua casa em consequência dessa restrição.

 

Por detrás de uma máscara de rudeza, provocação e intransigência, existe uma tragédia pessoal a vários níveis, que vamos descobrindo aos poucos, à medida que Emerence vai baixando a sua guarda e se vai criando uma forte ligação entre esta e Magda, apesar dos seus feitios divergentes. Penso que é tudo o que precisam de saber para se aventurarem nesta leitura surpreendente e muito rica

 

Fiquei fascinada com a escrita de Magda Szabó, um típico caso de primeiro estranha-se, depois entranha-se. No início, pareceu-me um pouco fechada, difícil de penetrar, mas habituei-me a esta com relativa facilidade e rapidez, de tal modo que se tornou adictiva. Confesso que me foi difícil abandoná-la e partir para outras leituras, porque o meu cérebro como que se moldou àquela escrita com subtilezas deveras interessantes que adorava saber explorar melhor neste texto, tivesse eu formação académida para tal. Além de me ter identificado muito com a escrita, recomendo-o sobretudo pelo seu conteúdo.

Não respondi e continuei a bater à máquina, embriões de frases incompreensíveis nasciam-me debaixo dos dedos nervosos.

 

21
Mar18

[LIVROS] | Bandolim

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Hoje, Dia Mundial da Poesia, voltamos em grande ao Projecto #lerpoesia. Este mês haverá opinião de dois livros para compensar a minha falha em Fevereiro, ambos de Adília Lopes (pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira), da qual já estava a morrer de saudades. Em 2017, li pela primeira vez Adília (Manhã) e fiquei completamente apaixonada por esta poetisa, cronista e tradutora portuguesa.

 

O estilo de Adília Lopes é inconfundível mas também difícil de classificar. Os seus livros não se fazem apenas de poemas, mas são pura poesia. Reflexões, memórias, poemas, palavras, citações. De uma simplicidade e genialidade ímpares, Adília desarma-nos e deixa-nos de sorriso nos lábios. Quando leio os seus livros, fico sempre cheia de vontade de lhe dar um abraço e a desejar que seja da minha família.

 

Já andava a namorar este Bandolim desde que terminei o Manhã mas fui resistindo. Até que, numa ida à Fnac de Santa Catarina num sábado chuvoso, lhe peguei e li quase 50 páginas de enfiada. Uns dias depois estava a encomenda feita e o livro nas minhas mãos. Não conheço a obra toda de Adília Lopes, mas Bandolim é, em termos estruturais, semelhante ao Manhã, por isso lê-lo foi como regressar a casa, tão bom.

 

Se ainda não conhecem esta magnífica mulher e a sua escrita, não esperem mais. Precisamos de mais Adília nas nossas vidas.

MODUS OPERANDI

Nunca consegui escrever nada com projectos, planos, programas, esquemas, prazos. Grão a grão, verso a verso, enche a galinha o papo. Pôr o carro à frente dos bois. Assim é que funcionou para mim.

 

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