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Mais Mulheres Por Favor

18
Mai18

[OPINIÃO] | Da incredulidade

Gostava de partilhar aqui a publicação do The New York Times (fica também a do Público) sobre o que se passou no The Sydney Writers’ Festival e as notas abaixo, depois de ter lido um post que me deixou incrédula.

 

Zinzi Clemmons não é apenas uma senhora, é escritora e professora na Occidental College, em Los Angeles.


A forma como Zinzi Clemmons se sentiu quando Junot Díaz a assediou não é comparável com aquilo que Díaz sentiu quando foi confrontado em público por esta, nem devia ser uma dúvida que Zinzi Clemmons se tenha sentido mal ao ser assediada.

 

"umas tantas raparigas", são Carmen Maria Machado (autora de contos, ensaísta e crítica frequentemente publicada na The New YorkerGrantaLightspeed Magazine, entre outras publicações) e Monica Byrne (dramaturga e autora de ficção-científica), entre outras vozes que surgiram manifestando que muita gente sabia ou suspeitava destes comportamentos.

 

Díaz disse em comunicado através da sua agente literária (Nicole Aragi): "Assumo a responsabilidade pelo meu passado. É por isso que decidi contar a verdade sobre a minha violação e as suas consequências danosas. Esta conversa é importante e tem de continuar. Estou a ouvir e a aprender com as histórias das mulheres neste movimento cultural essencial e há muito devido. Temos de continuar a ensinar todos os homens sobre o que é o consentimento e os limites”.

 

Não, Zinzi Clemmons não vai, nem tem, de pedir desculpa.

 

20
Set17

[LIVROS] | As Coisas Que os Homens Me Explicam

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A capa e o título deste livro conquistaram-me desde o primeiro dia. Por esta razão, este foi um daqueles livros em que o tempo entre comprá-lo e lê-lo foi praticamente nulo. O carácter urgente desta leitura foi totalmente justificado, já que As Coisas Que os Homens Me Explicam entrou directamente para a lista dos livros preferidos de sempre

 

Neste livro de Rebecca Solnit estão reunidos nove textos sobre desigualdade de género, todos maravilhosamente bem escritos, carregados de ironia, humor e tremendamente pertinentes. O primeiro deles relata um episódio caricato, onde um homem lhe explica pormenores sobre um livro que não leu e que, curiosamente, foi escrito por ela (!). Este episódio deu origem a um texto publicado no blog "TomDispatch", em 2008, texto esse que teve uma enorme projecção e que fez com que o termo mansplainning (man explaining) passasse a ser utilizado em larga escala (apesar de não ter sido criado por Solnit). O termo mansplained chegou mesmo a ser uma das palavras do ano de 2010 do New York Times.

Qualquer mulher sabe a que me refiro. É a arrogância que dificulta, por vezes, a vida a qualquer mulher em qualquer área; que impede as mulheres de se pronunciarem ou de se fazerem ouvir quando se atrevem a falar; que reduz as mulheres jovens ao silêncio, mostrando-lhes, tal como o assédio nas ruas, que o mundo não é delas. Faz-nos duvidar de nós próprias e autoimpormo-nos limites, da mesma maneira que desenvolve a autoconfiança excessiva e injustificada dos homens. (...)

A maior parte das mulheres trava guerras em duas frentes: uma em nome de qualquer que seja o tema em discussão e outra simplesmente para terem o direito de falar, de acalentar ideias, para lhes ser reconhecida a capacidade de serem detentoras de factos e verdades, de terem valor, de serem um ser humano. As coisas melhoraram, mas esta guerra não terminará no meu tempo de vida. Eu ainda a estou a travar, por mim, sem dúvida, mas também por todas as mulheres mais jovens que têm algo a dizer, com a esperança de que o consigam fazer. (...)

(Para que fique registado, penso que as mulheres também explicam coisas de maneira condescendente aos homens e não só. Mas isso não é indicativo da enorme diferença de poder, que assume formas muito mais sinistras, nem do padrão geral que caracteriza a maneira como o género funciona na nossa sociedade.)

 

Não podia deixar de vos transcrever estas partes do primeiro texto, já que me fizeram adorar, automaticamente, Rebecca Solnit, estando ainda na página 20. Outros temas abordados neste livro dizem respeito à violência de género: a pandemia de violência é sempre explicada com base em tudo, menos no género, em tudo, menos no que parece ser o maior padrão explicativo de todos, e ao feminismo como impulsionador de mudança no mundo: o feminismo tornou o casamento entre pessoas do mesmo sexo possível precisamente por fazer tanto para transformar uma relação hierárquica numa relação igualitária. São ainda referidos diversos casos mediáticos que, de uma forma mais imediata ou mais demorada, tiveram impacto no progresso da defesa dos direitos das mulheres.

 

Como se ainda não houvesse razões suficientes para ler este livro, cada texto é acompanhado de uma imagem de Ana Teresa Fernandez, nascida no México, actualmente Professora de Arte em São Francisco. Podem ver as suas maravilhosas pinturas aqui (fiquei fã dos grupos de pinturas: Foreign Bodies, Ablution, Telaraña e Pressing Matters - algumas são usadas no livro). Há também um texto dedicado a Virginia Woolf, um dos meus preferidos: ela exigia a libertação das mulheres não só para poderem fazer algumas das coisas institucionais que os homens faziam (e que as mulheres de hoje também fazem), mas também para terem a liberdade total para deambularem, geografica e imaginativamente.

 

Resta-me acrescentar que As Coisas Que os Homens Me Explicam reúne reflexões essenciais a todos nós. As suas conclusões são tão claras e esclarecedoras que nos sentimos com poder suficiente (e sem mais desculpas) para erguer os braços e lutar por um mundo sem desigualdade de género, por um mundo melhor.

Eis a tal estrada, que talvez tenha mil quilómetros de comprimento, e a mulher que a percorre não vai no primeiro quilómetro. Não sei quanto é que ela ainda tem de percorrer, mas sei que não está a andar para trás, apesar de tudo... e não caminha sozinha. A sua companhia são porventura inúmeros homens e mulheres e pessoas com géneros mais interessantes.

Eis a caixa que Pandora abriu e as lâmpadas das quais foram libertados os génios; hoje, parecem prisões e caixões. Morrem pessoas nesta guerra, mas as ideias não podem ser apagadas. 

 

Para além deste livro, encontra-se também já publicado Esta Distante Proximidade, habitante da minha estante feminina, mas cuja leitura está suspensa já que aguardo um maior número de obras de Rebecca Solnit publicadas em Portugal, para não ficar um vazio no meu coração depois de o ler. Desta forma, deixo um pedido especial à Quetzal: editem tudo o que foi e será publicado pela mão desta escritora, por favor.

 

11
Set17

[LIVROS] | Um Quarto Só para Si

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Um Quarto Só para Si, ensaio publicado em 1929, baseia-se em duas conferências com o tema As Mulheres e a Ficção dadas por Virginia Woolf a um público feminino. É mundialmente reconhecido como uma obra clássica feminista onde Virginia reflecte, de forma muito clara, porém carregada de ironia, acerca da forma como a educação e a sociedade influenciaram a presença das mulheres na literatura. Esta presença foi quase nula até à segunda metade do século XVIII, época em que surgiram os nomes de Jane Austen, das irmãs Brontë e George Eliot (Mary Ann Evans), responsáveis por obras incontornáveis da literatura como Orgulho e Preconceito, O Monte dos Vendavais (Emily Brontë) e Middlemarch.

 

No início deste ensaio, Virginia Woolf alerta o seu auditório que: o que vou descrever não existe: Oxbridge é uma invenção; Ferhnam também; "eu" é somente um termo conveniente para alguém que não tem uma existência real. As mentiras hão-de fluir dos meus lábios, mas talvez possa haver alguma verdade misturada nelas; cabe-vos procurar e encontrar essa verdade e decidir se vale a pena guardar qualquer fracção dela. Caso contrário ides atirar, evidentemente, tudo para o cesto dos papéis e esquecer. Feita a ressalva, como podemos não nos apaixonar de imediato por Virginia Woolf?

 

O papel de superioridade que os homens assumiram ao longo de séculos em relação ao sexo feminino e a falta de condições financeiras, de um espaço espaço próprio e de educação, reflexo de uma sociedade patriacal, são constantemente reforçados por Virginia como as causas fulcrais para as mulheres terem surgido tão tarde, e a muito custo, na literatura.

Mas aquilo que acho deplorável, continuei, olhando outra vez para as prateleiras, é que nada se saiba sobre as mulheres anteriores ao século XVIII. Não surge qualquer pista no meu espírito para me voltar para este lado ou para aquele. Eis-me a indagar porque razão as mulheres não escreveram poesia na época isabelina; e não sei como foram educadas: se as ensinavam a escrever; se tinham salas de estar para si; quantos filhos tinham antes dos vinte e um anos; o que, resumindo, faziam das oito da manhã às oito da noite.

 

Uma vez ultrapassada a barreira social e educional que impedia que as mulheres tivessem as mínimas condições para escrever, Virginia Woolf chama a atenção para as dificuldades que as primeiras mulheres que se aventuraram nesse caminho sentiram: A indiferença do mundo que Keats, Flaubert e outros homens de génio acharam tão difícil de suportar, era, no caso delas, não a indiferença, mas a hostilidade. O mundo não lhes dizia como dizia a eles: "Escrevam se quiserem; é-me indiferente". O mundo dizia com uma gargalhada grosseira "Escrever? Para que serve o que escrevem?".

 

Ao longo desta leitura somos diversas vezes confrontados com a visão prática que Virginia Woolf tem do mundo. Sempre muito acertiva, defende acerrimamente que a independência financeira da mulher é um factor fundamental para que esta possa ser livre para escrever: A poesia depende da liberdade intelectual. E as mulheres têm sido sempre pobres, não só durante duzentos anos, mas desde o início dos tempos. As mulheres têm tido menos liberdade intelectual do que os filhos dos escravos atenienses. Assim, as mulheres não têm sido bafejadas pela sorte para escrever poesia. É por isso que tenho posto tanta ênfase no dinheiro e num quarto só para elas.

 

Esta opinião já vai longa e tal deve-se ao mérito das palavras de Virginia Woolf. Fiz imensas anotações e senti, desde o início, uma relação muito forte com este livro, com esta escritora e com a mensagem feminista transmitida. Toda a experiência de leitura de mulheres que se preocupam em analisar a causa feminina e em procurar soluções, sempre com a esperança de que havemos de ultrapassar todas as barreiras que nos foram e são colocadas, deixou-me muito sensibilizada ao ponto de não reconhecer a alma geralmente insensível que habita em mim. Deixo-vos mais umas partes (épicas) deste livro maravilhoso, leiam-nos enquanto imaginam Virginia a discursar para uma plateia universitária feminina, há 88 anos atrás.

 

Que talento, que integridade devem ter sido exigidos em face das críticas a que estavam sujeitas, no meio daquela sociedade puramente patriacal, para segurarem com firmeza uma coisa tal como a viam sem se violentarem. Apenas Jane Austen e Emily Brontë o conseguiram. É, talvez, o mais belo motivo de orgulho. Escreveram como as mulheres escrevem, não como os homens.

 

Portanto queria pedir-vos que escrevêsseis todo o tipo de livros, sem hesitar perante qualquer assunto por muito trivial ou vasto que seja. De uma maneira ou de outra, espero que tenhais bastante dinheiro vosso para viajar e saborear o ócio, para contemplar o futuro ou o passado do mundo, para sonhar em cima dos livros, parar às esquinas das ruas e permitir que uma linha do vosso pensamento mergulhe no seu curso.

 

Numa escala de zero a dez classifico-o como: obrigatório.

 

08
Set17

[EDITORIAL] | Mais Mulheres Por Favor

Além disso, dentro de cem anos, pensei ao chegar à minha porta, as mulheres terão deixado de ser um sexo protegido. Logicamente vão participar em todas as actividades e empregos que outrora lhes eram negados. A ama despejará carvão. A lojista conduzirá uma locomotiva. Todas as suposições assentes em factos, observadas quando as mulheres eram o sexo protegido, terão desaparecido (...).

 

Em 1929, Virginia Woolf, em Um Quarto Só para Si, previa que a mulher se emanciparia de forma estrondosa dentro de cem anos. A 12 de anos de atingirmos este prazo, é inquestionável que muita coisa mudou desde então, o debate feminista está mais aceso do que nunca, foram feitas conquistas muito importantes para a defesa dos seus direitos e o trabalho desenvolvido pelas mulheres é, finalmente, do mundo. A visibilidade que as mulheres têm tido nas redes sociais desempenhou um papel muito poderoso nesta causa e foi através de um destaque cada vez mais frequente que o feminismo me tocou de forma incontornável. Literatura, música, cinema, séries, fotografia, desenho, havia (e há) muito por onde escolher. De conta em conta, de página em página, fui descobrindo um número sem fim de recomendações literárias e cinematográficas, fotografias e ilustrações maravilhosas, todas com um denominador comum: mulheres.

 

Como seria de esperar numa apaixonada por livros, o meu primeiro contacto verdadeiramente consciente com a divulgação das mulheres na cultura foi, naturalmente, através desta arte. Chegaram-me à vista projectos deliciosos que me desassossegaram a alma, o espírito, os neurónios, ou o que lhe queiram chamar. Ganhei, automaticamente, muito afecto pelo Leia Mulheres, iniciado no Brasil por três amigas, Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, com o intuito de dar continuidade ao projecto #readwomen2014 da escritora Joanna Walsh, fazendo não só um convite à leitura de obras escritas por mulheres, mas transportando também esta iniciativa para livrarias e espaços culturais. O mesmo aconteceu quando conheci, pouco tempo depois, o Our Shared Shelf, um clube de leitura feminista criado por Emma Watson, que consiste em ler um livro escrito por uma mulher de dois em dois meses (no início, mensalmente), discutindo-o posteriormente.

 

Graças a estes projectos, comecei a dar mais importância à escolha das minhas leituras, tentando gerir um equilíbrio que se adivinhava difícil, já que cerca de 90% da minha estante era constituída por escritores. Não me obriguei a ler apenas mulheres, até porque nenhuma das iniciativas que referi anteriormente apela a tal acto, no entanto, as obras escritas por mulheres ganharam um grande destaque na minha estante e as minhas leituras (e compras) tornaram-se, com muita naturalidade, maioritariamente femininas.

 

Paralelamente ao meu crescente interesse por obras escritas por mulheres, tenho prestado muito mais atenção à participação das mulheres noutras áreas culturais que antes me passavam despercebidas. Vou fazendo muitas listas de filmes e séries que têm uma participação feminina activa, quer na produção, quer no conteúdo, e seguindo cada vez mais mulheres ilustradoras e fotógrafas, actrizes e cantoras. Sempre de sorriso no rosto, feliz da vida.

 

À medida que o meu entusiasmo com esta temática foi crescendo, senti um grande desejo de largar tudo e dedicar-me a um projecto de divulgação das mulheres nas várias áreas da cultura, já que me pareceu haver uma lacuna nesta área em Portugal (caso esteja equivocada, por favor mostrem-me todos os que existirem, prometo que olharei para cada um deles deliciada). E assim nasceu o Mais Mulheres Por Favor. Não sei se terei o tempo necessário para levar este projecto a bom porto (o que quer que seja que isso signifique), se serei teimosa e persistente o suficiente para tal, se precisarei de outras pessoas para me ajudar, se existirá um clube de leitura ou encontros periódicos para discutir obras (não necessariamente apenas livros) de mulheres, mas gostava muito (tanto) de sentir que, de alguma forma, posso contribuir para que alguém que por aqui passe dê mais atenção ao conteúdo produzido pelas mulheres.