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Mais Mulheres Por Favor

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20
Dez18

[LIVROS] | Inverno

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Li Outono, o primeiro livro da tetralogia de Ali Smith, em Setembro de 2017, e este tornou-se automaticamente um dos preferidos do ano, pela história e pelo contexto tão actual (pós-Brexit), por isso, não resisti a adquirir Inverno, assim que foi publicado em Portugal, pela Elsinore, no final de Outubro.
 
É difícil não estabeler comparações entre os dois livros, até porque as expectativas eram muito elevadas, e, afinal de contas, fazem parte de uma tetralogia, mas precisei de me afastar um pouco do primeiro volume, para conseguir avaliar este. Não me apaixonei tanto pela história como aconteceu antes e, em consequência disso, houve alguma desilusão pelo caminho, mas adorei os diálogos e a maioria das personagens. De referir também que este livro tem um dos melhores inícios que já li (deixo abaixo uma parte).
Deus estava morto: para começar.
E o romance estava morto. A cortesia estava morta. A poesia, a prosa, a pintura, todas elas estavam mortas, e a arte estava morta. O teatro e o cinema estavam ambos mortos. A literatura estava morta. O livro estava morto. O modernismo, o pós-modernismo, o realismo e o surrealismo estavam todos mortos. O jazz estava estava morto, a música pop, a música disco, o rap, a música clássica, mortos. A cultura estava morta. A decência, a sociedade, os valores familiares estavam mortos. O passado estava morto. A História estava morta. O Estado-providência estava morto. A política estava morta. A democracia estava morta. O comunismo, o fascismo, o neoliberalismo, o capitalismo, todos mortos, e o marxismo, morto, o feminismo, morto também. A correção política, morta. O racismo estava morto. A religião estava morta. O pensamento estava morto. A esperança estava morta. A verdade e a ficção estavam ambas mortas. Os media estavam mortos. A Internet estava morta. O Twitter, o Instagram, o Facebook, o Google, mortos.
O amor estava morto.
A morte estava morta.
Muitas coisas estavam mortas.
[...]
Foi uma leitura deliciosa, com muitas passagens repletas de ironia, discussões e reflexões. Comparativamente ao Outono, Inverno não tem uma história tão bela, mas levanta muito mais questões políticas e sociais, tem mais matéria para reflectir, nomeadamente, sobre os desafios que, como cidadãos europeus em particular (e do mundo em geral), temos vivido há alguns anos. As minhas personagens preferidas são, sem dúvida, as duas irmãs, Sophia e Iris, com pensamentos e ideologias completamente distintos (e que dão azo a diálogos - discussões - muito bons). Apesar daquilo que as separa, amam-se profundamente. 
 
É maravilhoso acompanhar a tensão que se gera constantemente entre ambas, e, em simultâneo, os gestos e as respostas que denotam também o carinho que as une. A personagem de Lux, uma emigrante croata, que é contratada pelo filho de Sophia (Art) para substituir a namorada com quem terminou a relação recentemente, é também uma das minhas preferidas pois evidencia ainda mais o registo cómico-trágico deste livro. Inverno é uma leitura muito convidativa nesta época do ano, já que, para além do auto-explicativo título, a maior parte do livro se passa entre a noite da véspera de Natal e os dias seguintes, havendo também breves viagens ao passado das personagens, pequenos vislumbres do futuro (depois do Inverno) e uma forte dinâmica familiar
[...] Muitos dos meus velhos amigos estão na Grécia, os teus amigos terão certamente interesse em sabê-lo. Faço-te uma lista de nomes, se quiseres. Diz aos teus amigos que uma certa experiência na arte de criar sítios para as pessoas viverem ou dormirem a partir do nada lhes será útil. Diz-lhes também que há lá montes de jovens, jovens enérgicos, jovens que terão certamente todo o interesse em incluí-los nos seus ficheiros.
Nenhum dos meus amigos teria o mais pequeno interesse em nada disso, disse Sophia.
Diz-lhes por mim, disse Iris, como é a realidade lá. Diz-lhes que as pessoas estão numa situação muito má. Fala-lhes das pessoas cuja vida é a única coisa que lhes resta. Fala-lhes daquilo que a tortura faz a uma vida, daquilo que faz a uma língua, de como aqueles que por ela passaram não ousam explicar a si mesmos, quanto mais aos outros, o que lhes aconteceu. Fala-lhes do que é a perda. Fala-lhes, sobretudo, das crianças pequenas que lá chegam. Crianças pequenas. Centenas de crianças pequenas. De cinco e seis e sete anos.
Iris disse-o com a sua calma habitual.
E depois de lhes dizeres tudo isso, disse, fala-lhes de como é voltar para aqui enquanto cidadão do mundo que trabalha com todos os outros cidadãos do mundo e ouvir que não se é cidadão de lugar nenhum, ouvir dizer que uma primeira-ministra britânica equiparou o mundo a lugar nenhum. [...]
Ali Smith volta a confirmar, se dúvidas existissem, que é uma autora contemporânea a acompanhar, pelo que não posso deixar de vos recomendar Inverno, caso já tenham lido Outono. Se não leram, atirem-se, depressa. Apesar destes dois primeiros volumes não terem enredos que se interliguem directamente, creio que devem ser lidos por ordem cronológica (a sequencialidade das estações não é um acaso) porque há um certo desabrochar daquele que creio ser o tema central desta tetralogia: a situação político-social que assola a velha Europa. O primeiro volume aborda-o de forma evidente, mas o segundo consegue fazê-lo de forma ainda mais impactante, qual inverno glaciar que se instalou definitivamente.
 
30
Dez17

[LIVROS] | As Melhores Leituras de 2017

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2017 foi um ano de grandes mudanças nas minhas leituras. Dos 53 livros que li, 46 foram escritos por mulheres, num total de 39 autoras diferentes. Li 17 livros de poesia, todos escritos por mulheres. Escolher as melhores leituras deste ano não foi propriamente fácil porque para além da lista de livros que li ser muito diversificada, não houve desilusões, todos resultaram, de alguma forma, numa experiência enriquecedora e inspiradora. Tal como já disse algumas vezes, quanto mais leio mulheres, mais gosto de o fazer e maior é a vontade de ler mais. Ficam abaixo as minhas leituras preferidas:
 
O livro mais desafiador que li este ano. Complexo, poderoso, essencial, feminista em tempos de ditadura. Apesar da grandiosidade em torno desta obra escrita pelas "três Marias", não tenham medo de lhe pegar, é maravilhoso e todo o contexto histórico, político e social que o envolve tornam este livro obrigatório.
 
O primeiro livro que li quando estava a pensar começar este blog e que me deu o decisivo empurrão. Virginia Woolf foi sem dúvida uma grande mulher e este ensaio sobre as mulheres e a ficção deveras emocionante. Muito se alterou desde então, mas há ainda tanto por fazer. Verdadeiramente inspirador.
 
A magnífica estreia literária de Svetlana Alexievich é constituída por centenas de entrevistas realizadas a mulheres russas que fizeram parte da Segunda Guerra Mundial. Foram atiradoras, cirurgiãs, enfermeiras, conduziram tanques e pilotaram aviões, entre muitas outras funções associadas ao ambiente bélico. De uma dureza perturbadora e tremendamente emocionante, faz-nos chorar pelo sofrimento cravado em cada página, mas também de orgulho pela coragem e pelas conquistas destas mulheres.
 
Maria Teresa Horta foi uma das melhores descobertas deste ano e este foi o livro que mais gostei. Paixão e loucura envolvem-se perigosamente a cada página, a cada poema, a cada parêntesis. Caracteriza-se por uma escrita feminina, recheada de intimidade e erotismo, onde são recorrentes as referências a Clarice Lispector, Sylvia Plath, Virginia Woolf, entre outras.
 
Reúne nove textos sobre desigualdade de género, todos maravilhosamente bem escritos, carregados de ironia, humor e tremendamente pertinentes. Rebecca Solnit é uma escritora contemporânea que merece toda a nossa atenção nos tempos que correm. Se ainda não a conhecem, leiam este livro com urgência.
 
Regressar a Han Kang num registo tão diferente de A Vegetariana foi uma das melhores coisas de 2017. Trata-se de um retrato comovente e terrivelmente duro da tensão e do massacre que se verificaram em 1980, na Coreia do Sul, especificamente na região de Gwangju. O segundo capítulo deste livro (O Amigo do Rapaz. 1980) foi o que mais me impressionou nesta obra, uma das melhores experiências literárias do ano.
 
Ali Smith, numa estrutura com variações entre passado e presente, escreve sobre a amizade entre duas pessoas com 70 anos de diferença. Delicado, belo e melancólico, tal como o Outono, este livro transporta-nos para uma amizade que se constrói gradualmente, de forma muito especial, ao mesmo tempo que nos presenteia com diversas referências ao contexto político em que se insere, já que foi escrito no pós-Brexit.
 
8. Poesia Reunida, Martha Medeiros
(ebook) A melhor descoberta de 2017 no que diz respeito à poesia. Precisamos de mais Martha Medeiros nos nossos corações e nas nossas mentes, por isso, fica aqui o apelo às editoras portuguesas: publiquem-na!
 
Lançado este ano, Poesis é uma autêntica epopeia no que diz respeito à génese da poesia. É uma descrição absolutamente soberba do seu processo criativo: pensar, escrever, riscar, sofrer, relembrar, ler, reler. Repetir todo o processo novamente.
 
10. Nadar na Piscina dos Pequenos, Golgona Anghel
Golgona Anghel, nascida na Roménia mas residente em Portugal há muitos anos, é uma das poetisas que mais gosto. Nadar na Piscina dos Pequenos vem, uma vez mais, confirmar a qualidade e a originalidade da sua poesia.
 
Releitura que teve como objectivo incentivar-me a ler os seus outros três livros (algo que acontecerá no início de 2018). Um dos livros preferidos da vida que todos deviam ler.
 
12. Baladas, Hilda Hilst
(ebook) A par de Martha Medeiros, Hilda Hilst foi outra poetisa brasileira pela qual me apaixonei perdidamente este ano ao ler Baladas. Aguardo ansiosamente que as obras destas escritoras sejam publicadas em Portugal ou que alguém aí desse lado vá ao Brasil em breve e me faça o favor de mas trazer.
 
11
Out17

[LIVROS] | A Primeira Pessoa e outras histórias

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Este foi o primeiro livro que li de Ali Smith e, apesar de não ter ficado completamente rendida à sua escrita, fiquei encantada com algumas passagens. A Primeira Pessoa e outras histórias é um livro composto por doze contos, dos quais adorei particularmente O Verdadeiro Conto, que parte de uma conversa entre dois homens, um mais velho e outro mais novo, sobre a diferença entre o romance e o conto. O mais novo diz que o romance não passa de uma puta velha e flácida enquanto o conto é uma ágil deusa, uma elegante ninfa.

 

Não sendo o género literário que me arranca mais suspiros, fiquei absolutamente fascinada com a forma que O Verdadeiro Conto exalta as qualidades do conto face ao romance, deixando-me com vontade de dar mais oportunidades aos livros de contos. Destaco especialmente a parte final, onde nos são apresentadas as opiniões de alguns escritores sobre o conto.

Grace Paley diz que optou por escrever apenas contos, porque a arte é demasiado extensa e a vida demasiado curta, porque os contos são, por natureza, acerca da vida, e porque a própria vida é sempre baseada em diálogo e discussão.

Outro dos contos que mais gostei foi Fidélio e Bess, sobre a relação entre duas mulheres e cheio de referências às óperas Fidélio e Porgy and Bess. Este conto, que tem tanto de belo quanto de triste, fez-me sentir profundamente conectada a esta história de poucas páginas, uma das razões pelas quais fiquei com vontade de ler mais obras de Ali Smith.

Estamos condenadas em terra e condenadas no mar, tu e eu; tão condenadas quando seguramos o braço uma da outra no metro como quando discutimos sobre cultura no carro da pessoa com quem vives; tão condenadas num bar sentadas em frente uma da outra ou lado a lado no cinema, na ópera ou no teatro; tão condenadas como quando nos abraçamos intensamente nas várias camas dos vários quartos quase iguais onde vamos para ter o sexo que a pessoa com quem vives não sabe que temos.

"Writ" consolidou, por fim, a minha decisão em relação à escritora escocesa, nascida em Inverness. Relata o encontro entre uma mulher e o seu eu de catorze anos de uma forma tão simples e cativante, algo que, sem dúvida, sinto falta na maior parte das vezes em que leio contos, já que tantas são as vezes em que, rapidamente, se perde o sentido, a finalidade e a ligação com a história e, quando damos por nós, já estamos no início de outro conto. Para minha felicidade, a posterior leitura de Outono comprovou que Ali Smith é uma escritora contemporânea para acompanhar bem de perto.

 

28
Set17

[LIVROS] | Outono

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Os finalistas do Man Booker Prize foram anunciados no dia 13 de Setembro, fazendo parte da lista reduzida três mulheres: Emily Fridlund, com History of Wolves, Fiona Molzey, com Elmet, e Ali Smith com Outono, publicado em Portugal, pela Elsinore, em Maio deste ano. Como tinha lido há pouco tempo o livro de contos A Primeira Pessoa e outras histórias, de Ali Smith, e gostado bastante (falarei dele em breve), decidi comprar Outono e levá-lo para o Algarve para o saborear entre mergulhos na praia e na piscina, numa semana de transição entre Verão e Outono, convencendo-me que estavam reunidas as condições perfeitas para a sua leitura.

 

Soube, após poucas páginas lidas, que Outono ia conquistar o meu coração, facto que veio a confirmar-se com maior evidência quando dei por mim a poupar as páginas finais, apesar de saber que este livro faz parte de uma tetralogia (relativa às estações do ano, naturalmente). Sem ter lido mais nenhum dos romances, foi crescendo uma sensação dentro de mim de que este livro seria o vencedor do prémio, devido à forma como está escrito (consolidei o meu gosto pela escrita de Ali Smith com este livro), à delicadeza da história e, sobretudo, ao contexto político em que se insere, já que foi escrito no pós-Brexit e são feitas diversas referências a um futuro que se avizinha incerto e instável após este acontecimento e que nos toca cada vez mais directa do que indirectamente.

 

Ali Smith, numa estrutura que muito aprecio, com viagens entre passado e presente, escreve sobre a amizade entre duas pessoas com 70 anos de diferença: Daniel Glück e Elisabeth Demand. Quando Elisabeth, ainda criança, muda de casa com a mãe conhece o misterioso vizinho do lado, Daniel, nascendo uma relação de amizade que irá durar para além dos tempos, e que vamos acompanhando ao longo deste livro. Daniel é um homem culto, que gosta de ler e aprecia arte, que escreveu letras de músicas, e que introduz Elisabeth a este mundo apesar da relutância da mãe desta, já que não vê com bons olhos que Elisabeth passe tanto tempo com um homem tão velho.

Devemos estar sempre a ler alguma coisa, disse ele. Mesmo que não estejamos a ler fisicamente. Caso contrário, como seremos nós capazes de ler o mundo? Imagina o processo como uma constante.

Não quero revelar mais do que estes traços do livro, porque acho que deve ser descoberto à medida que é lido, tal como o fiz, sem saber nada sobre ele. Vão surpreender-se e ficar ligados a esta história que tem tanto de bela quanto de melancólica (afinal, não é assim mesmo o Outono?), fazendo-nos reflectir sobre diversos aspectos sociais e políticos, enquanto admiramos a construção e evolução de uma relação de amizade invulgar, mas tão bonita.

Nesse mesmo dia, à noite, quando estava em casa a adormecer no sofá em frente à televisão, Elisabeth rememoraria o momento em que viu os olhos dele abrirem, e no quanto se assemelhava àquele instante em que por acidente se vê as lâmpadas dos postes de iluminação pública acender e se tem a sensação de se estar a ser brindado com um presente, ou uma oportunidade, ou de se ser tido como distinguido e escolhido pelo momento.

 

O vencedor do Man Booker Prize será anunciado no dia 17 de Outubro e estarei a torcer por Ali Smith. Ainda assim, gostava muito que as obras das outras duas escritoras na lista de finalistas fossem editadas em Portugal, em particular Fiona Molzey, já que tem 29 anos e Elmet é o seu romance de estreia.

 

WOOK - www.wook.pt