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Mais Mulheres Por Favor

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04
Fev19

[LIVROS] | Vox

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Vox, de Christina Dalcher, é uma distopia feminista que nos coloca nos Estados Unidos da América, onde as mulheres têm direito a verbalizar apenas 100 palavras por dia, contabilizadas por uma pulseira. Quando chegam às cem palavras são electrocutadas pela própria pulseira e à medida que ultrapassam o limite diário de palavras verifica-se o mesmo com a intensidade do choque.

 

Gosto particularmente de distopias porque nos fazem reflectir sobre quão longe poderemos estar de que se concretizem na vida real. Tendo em conta o nosso passado de silenciamento e a crescente onda de revolta, é natural que se receie uma nova revolução social, voltando o homem a estar no comando e a mulher completamente silenciada. Não é difícil imaginar como seria passarmos da liberdade de expressão que dispomos actualmente no nosso dia-a-dia, no trabalho, em casa, na rua, para um quase total silêncio. Abreviar frases de modo a usar o menor número de palavras possível, responder a questões abanando apenas a cabeça, voltar ao papel de dona de casa, uma vez que todas as mulheres perderam o direito de trabalhar, juntamente com a sua voz. Se pararmos um pouco para reflectir e nos recordarmos das pessoas com visões sociais e políticas muito pouco igualitárias que se encontram à frente de diversos países actualmente, tudo isto ganha dimensões palpáveis e concretizáveis, sobretudo quando as imaginamos associadas a um poderoso fundamentalismo religioso.

 

Vox apresenta-nos, portanto, um cenário altamente provável e tremendamente assustador. Gostei muito da forma como, em diversos momentos, me fez equacionar de que forma a minha vida mudaria ou como reagiria (ou não) face a divergências familiares quotidianas. Outro aspecto importante de reflexão prende-se com a educação de um filho e de uma filha num período como este. Seria árduo em ambas as situações porque apenas teríamos cem palavras diárias para o fazer, mas, no segundo caso haveria a preocupação acrescida de fazê-la compreender, desde muito pequena, que não pode pronunciar mais de 100 palavras por dia. Adicionalmente, quais as possíveis repercussões que uma restrição deste genéro poderia ter na nova geração de mulheres, em termos linguísticos?

 

A figura central de Vox é Jean, neurolinguista conceituada, mãe de três rapazes e de uma rapariga, que se vê afastada do seu trabalho e de si própria, a braços com a mudança de comportamento dos filhos (resultante das alterações educativas que este regime impôs) e com o futuro da filha. É através dela que temos conhecimento do que se passa naquele país e de como o futuro se prevê ainda mais assustador e limitativo.

 

O ritmo deste livro, que devorei rapidamente, e as questões que levanta agradaram-me bastante, contudo, fiquei um pouco desiludida com a intriga amorosa e o desfecho. Imaginava um final em aberto, prolongando-se o peso que este género de distopia coloca tipicamente sobre nós. Ainda assim, creio que irá fazer as delícias de quem é fã de distopias e thrillers, sobretudo entre os mais jovens. Estou ansiosa para falar sobre ele no Net Book Club.

 

Livro cedido pela editora, à venda a partir de hoje.

 

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