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Abr18

[LIVROS] | Viagem ao Sonho Americano - A América pelos livros

 

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Depois da Cláudia me ter falado deste livro no último encontro do Clube dos Clássicos Vivos, não demorei muito tempo a trazê-lo para a minha estante. Trata-se de um conjunto de reportagens, doze no total, que Isabel Lucas foi publicando no jornal Público enquanto percorria os Estados Unidos da América, de Norte a Sul, Este a Oeste, durante cerca de um ano. Cada reportagem está associada a um livro (nalguns casos, dois) e a uma região dos EUA. Viagem ao Sonho Americano apresenta um contexto literário, político, histórico e social muito rico, dominado com grande maestria por Isabel Lucas. Antes de cada texto, há uma página com o livro em foco, a geografia que lhe está associada, bem como outros livros referidos ao longo da reportagem. Depois temos a reportagem propriamente dita e, no final, um Travel Log, com entradas diárias, com pensamentos, constatações ou divagações da jornalista durante a viagem (uma das minhas partes preferidas).

8 de Março de 2016

"E vais sozinha?", perguntam-me mais uma vez, tantas vezes. Quase sempre é assim quando saio para um trabalho longo. Isso raramente se pergunta a um homem. Andar por aí, sendo mulher, é ter a noção, não apenas do preconceito, mas de que somos um corpo exposto a mais perigos. Ainda é assim.

Ao longo das reportagens percorremos alguns dos clássicos americanos, como Moby Dick, Beloved, A Piada Infinita e A Trilogia da Fronteira (Belos Cavalos, A Travessia, Cidades da Planície), bem como as zonas a que estes estão associados, New Bedford, Boston, El Paso, etc., observadas em diversos momentos: enquanto Trump e Hillary concorriam às presidênciais dos EUA até à eleição, tomada de posse e primeiros meses de governação de Trump. Assistimos de perto ao antes e depois de Trump, às opiniões divididas, aos que apoiavam Trump, aos que votavam em Hillary por ser a única opção, aos que simplesmente não foram votar porque acharam que "não era preciso".

 

Existem também alguns paralelismos com outros momentos históricos dos Estados Unidos e com a evolução (ou não) do conceito de "sonho americano" ao longo dos tempos. Depois de ter lido este livro, fiquei com uma ideia ainda pior da que já tinha (da generalidade) dos americanos, que só foi equilibrada pelo facto de surgirem muitos livros e entrevistas a escritores à mistura (uma das quais Rebecca Solnit) e com o frequente sentido de humor e ironia de Isabel Lucas.


Compreendo perfeitamente o sentido político que foi impresso a estas reportagens e entrevistas, e acho que fazem todo o sentido em contraponto com a viagem literária, mas confesso que teria ficado ligeiramente mais feliz se, por vezes, houvesse ainda maior componente literária - achei que algumas entrevistas divagavam mais no aspecto político do que outras, mas no geral estão bem equilibradas. Outro factor que pode ser desmotivante nesta leitura, mesmo para os amantes de livros, passa por não conhecermos bem algumas das obras abordadas (foi maior a quantidade de livros referidos que ainda não havia lido), ainda que fiquemos desejosos de as conhecer. O entusiasmo ao ler sobre Moby Dick e A Trilogia da Fronteira (livros que já li) não foi o mesmo quando li sobre Sempre o diabo, de Donald Ray Pollock. (Re)Conhecer os livros e os escritores deixa-nos com um brilho especial nos olhos e ávidos de devorar as páginas que nos falam sobre eles, por isso, ficou a promessa de ler mais uns quantos e voltar a este novamente.

 

Dos livros que ainda não tinha lido, e que são mencionados neste livro, havia dois que já tinha muita curiosidade, A Piada Infinita (David Foster Wallace) e Beloved (Toni Morrison), e que dificilmente vou deixar escapar este ano graças às respectivas entrevistas (em particular o primeiro, que não estava à espera que me fascinasse tanto, com Beloved já estava mais do que convencida).

Quando a era digital dava os primeiros passos, a ficção de Wallace falava de um domínio do entretenimento, da perseguição do prazer total, do totalitarismo do consumo, da dependência de substâncias - medicamentos, droga, álcool -  e de gadgets, da preponderância de patologias mentais, da alienação, da solidão, do vazio, do suicídio e de uma imensa tristeza, pessoal e colectiva. "O tempo de uma culpa colectiva", como lhe chamou Jonathan Franzen, amigo de Wallace, escritor que no seu último romance, Purity, questionou a intenção tecnológica de estar a trabalhar em prol do bem. Estamos no território da ambiguidade em que se movem os homens e, por isso, a literatura. O totalitarismo do entretenimento de que Wallace falava ou o da rede digital, onde o conhecimento se guarda e multiplica e que Franzen desmonta a partir de organizações bem reais como a WikiLeaks. "Não é o bem, não é o mal", disse Franzen numa recente entrevista ao Público, porque nada é tão simples.

Isabel Lucas e este seu Viagem ao Sonho Americano - A América pelos livros fizeram com que a minha vontade de fazer uma roadtrip pelos EUA aumentasse exponencialmente e deixaram-me a sonhar com os livros que levaria para essa viagem. Parabéns à Isabel Lucas, que viajou sozinha pela América durante mais de um ano para partilhar connosco estas reportagens, e à Fundação Luso Americana que apoiou financeiramente este projecto, recomendo vivamente.

 

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