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31
Jul18

[LIVROS] | Vem à Quinta-Feira

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O livro escolhido para o #lerpoesia de Julho foi uma das compras da Feira do Livro, Vem à Quinta-Feira, de Filipa Leal, uma autora que ainda não tinha lido, mas que fiquei a conhecer através de alguns poemas publicados em diversas redes sociais, promovendo o livro. Como é hábito nas edições da Assírio & Alvim, esta é uma edição primorosa e muito bonita, e o único defeito que lhe podemos apontar é ser demasiado curta.

 

Como já adivinhava pelos poemas que fui lendo, identifiquei-me muito com a poesia da Filipa Leal e não conseguir prolongar a sua leitura por vários dias, li-o de seguida, lamentando não ter mais nada da autora para ler. Já investiguei algumas edições (Deriva Editores e Abysmo), nomeadamente O Problema de Ser Norte (2008), mas que se encontram esgotadas. A única que encontrei disponível foi Cidade Líquida & Outras Texturas (2006), mas a que faz mesmo bater o meu coração mais depressa é a que referi antes. Fica a nota para que a Assírio & Alvim reedite as suas obras - aqui têm uma fiel compradora.

 

A temática, os jogos de palavras e a naturalidade da poesia de Filipa Leal, bem como o poema dedicado a Herberto HelderOs Meus Primeiros Passos em Volta, neste Vem à Quinta-Feira (a propósito do poema Caranguejola, de Mário de Sá Carneiro), conquistaram-me definitivamente, pelo que me resta apenas deleitar-me com os poemas que surgem por aí e pelos livros que hão-de vir.

 

Para Aprender a Chorar

 

Juntaram no jantar de escritores

um crítico literário,

um poeta zen,

uma poetisa dada à música contemporânea,

uma produtora de espectáculos de fusão,

e eu.

 

Eu era, naturalmente, a mais alta representante da poesia

lamechas. Eu era a da voz grossa, a que lia poemas

deles pelas esquinas da cidade. Eu era a que fazia pausas

para o cigarro, a que não tinha companhia

para tanto mar, tanto frio, tantas interrupções de medo e nicotina.

 

Talvez alguém tenha falado de tristeza.

É um tema que me interessa.

 

Eu não sei chorar, disse. Nunca aprendi a chorar.

Aflijo-me. Fico com falta de ar.

Quero chorar muito mas acabo por chorar pouco

porque tenho medo de me engasgar e morrer.

 

Oh, riso geral.

Esta poeta lamechas é tão engraçada, tão dada

à auto-ironia, tão menos lamechas do que nós

pensávamos.

 

Nessa noite, chorei muito.

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