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Jun18

[LIVROS] | O Ministério da Felicidade Suprema

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Interrompendo um iato de 20 anos na escrita ficcional, a escritora indiana Arundhati Roy publicou em 2017 o tão aguardado segundo romance, depois de ter vencido o Booker Prize em 1997 (actual Man Booker Prize), com O Deus das Pequenas Coisas. Quando O Ministério da Felicidade Suprema foi editado em Portugal senti-me imediatamente impelida a adquiri-lo, creio que pela capa e pelo título, apesar de nunca ter lido O Deus das Pequenas Coisas, portanto, é sem termo de comparação entre estes dois livros que escrevo esta opinião.
 
Olhando em retrospectiva, reconheço que não escolhi o momento adequado para o ler porque não estava ciente da temática abordada e da dedicação que lhe estava implícita. Ao longo de cerca de um mês e meio, pouco foi o tempo por dia que consegui reservar à sua leitura e, nesses momentos, não consegui lê-lo com a fluidez habitual, o que tornou a leitura deste livro mais lenta do que seria de esperar. Comecei bem, muito entusiasmada e ligada à história e à personagem que me pareceu que seria central, Anjum, uma mulher muçulmana transgénero, mas, à medida que a história foi ganhando dimensão, focando-se noutras personagens durante largas dezenas de páginas (deixando as anteriores um pouco de parte) perdi algum entusiasmo. Apesar de no fim de O Ministério da Felicidade Suprema tudo fazer sentido e de todas as relações entre as personagens se encaixarem, acabei por não me ligar tanto às personagens que foram aparecendo, porque estava constantemente na esperança de regressar à minha preferida. Este foi um erro crasso meu, porque o livro era muito mais do que o retrato de Anjum, mas sim o retrato de uma Índia tão plural como desconhecida para a maioria de nós. Desta forma, este livro será um grande candidato a uma releitura mais madura e consciente.
 
Para além da dimensão temporal e geográfica deste livro, o contexto histórico, político e social é riquíssimo, em contraponto com o meu parco conhecimento sobre todos os conflitos que aconteceram na Índia e em Caxemira e que, actualmente, ainda não estão completamente resolvidos. A pluraridade de culturas, religiões, línguas, tradições e crenças, em conjunto com a pobreza e a solidão, fazem deste livro uma ode aos excluídos deste país, mas também à esperança no futuro, porque, adicionalmente à pobreza e à violência que são transversais a este romance, há amor, entre-ajuda e tolerância a despontar por toda a parte, num choro, numa canção, numa prece, nos gestos das personagens que se cruzam diante dos nossos olhos e que nos dão vontade de os acolhermos, de saber mais, de agir.
Era um velho hábito, dos tempos de universidade. Um deles abria o livro numa página ao acaso. O outro lia o poema. Muitas vezes acabava por ser curiosamente significativo para eles e para o momento particular que estavam a viver. Roleta de poesia.
Mais perto do final do livro, Tilo, uma arquitecta que se envolve na luta pela libertação de Caxemira, acabou por conquistar um lugar no meu coração, a par com Anjum, permitindo-me, então, ver com clareza a dimensão de O Ministério da Felicidade Suprema que referi anteriormente e, num suspiro, cansado mas profundo e transformador, cheguei ao final deste livro, apercendo-me que ele é muito mais poderoso do que intuí inicialmente e que Arundhati Roy realizou um excelente trabalho. Não recomendo este livro a todos, mas gostava que todos tomassem contacto com a Índia que Roy nos transmite neste livro, que não é de todo a Índia da espiritualidade, da paz e dos monges.
Cada um dos ouvintes reconheceu, à sua maneira, parte de si e da sua própria história, da sua Guerra Indo-Paquistanesa, na história desta mulher desconhecida e distante que já não estava viva. Isso fê-los cerrar fileiras em torno da Menina Jebben a Segunda como uma formação de árvores ou elefantes adultos - uma fortaleza impenetrável na qual ela, ao contrário da mãe biológica, cresceria protegida e amada.

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