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02
Ago18

[LIVROS] | Meninas

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Já tinha lido poesia e romances de Maria Teresa Horta, faltavam os contos. Como já era de esperar, Maria Teresa Horta não desilude, continua a surpreender com o seu maravilhoso domínio da escrita e da emoção. Não sendo a maior apreciadora de contos, foi com grande prazer que li o conjunto de 32 contos (e um poema final) que compõem este Meninas.

 

O título deste livro é bastante elucidativo quanto às personagens principais dos contos, no entanto, nada (a não ser aquilo que já conhecemos dos temas abordados pela autora) nos prepara para os retratos feitos ao longo dos mesmos. Estes contos são constantemente marcados por uma enorme carga emotiva, são duros, viscerais e muito tocantes, como Maria Teresa Horta já nos habituou. Em Meninas somos confrontados com histórias de meninas abandonadas, negligenciadas e vítimas de todo o tipo de maus tratos. São meninas que, apesar de tudo, são tantas vezes bravas, corajosas e resilientes. Os contos são ficcionais (por vezes baseados em personagens históricas como Carlota Joaquina), mas há muito da infância de Maria Teresa Horta nestas linhas.

Os verdadeiros encontros raramente se assemelham à literatura, embora consigam ser quase tão fortes quanto ela.

 

Livro após livro.

 

Desde pequena que eu sei da salvação e do fascínio da leitura, a compensar a fealdade imprevisível, a vertigem no despenhar incongruente, o perigo da entrega, o desamor desamado.

Páginas voltadas com sofreguidão desatada na ânsia de saborear o sonho, iludir a solidão, compensar a falta de afecto. Já em criança descobria nelas a beleza, entendia nelas o paraíso.

Pulsos estreitos, abertos pelo peso dos livros.

Gostei particularmente dos contos que têm lugar nos Açores, nomeadamente na ilha do Faial, onde nasci. É difícil transcrever a emoção de ler uma das nossas escritoras preferidas escrever sobre um local tão remoto e pouco conhecido, perdido no meio do Atlântico, e que conhecemos tão bem, mas é mesmo muito especial. Outra coisa que me agradou sobremaneira nestes contos foi o efeito visual dos mesmos, os infinitos tons de azul e verde, a construção frásica envolvente e muito descritiva.

 

Os meus contos preferidos foram Lilith (um monólogo no vente materno), Ondas (com citações do romance homónimo de Virginia Woolf), Katie Lewis (retratada a ler por Edward Burne-Jones), Sem Culpa (publicado numa colectânea de homeagem aos 35 anos da morte de Clarice Lispector) e o conto final, dilacerante, Estrela. Recomendo vivamente.

- Matilde, pára de abanar o banco! - ralhou a minha avó, e apesar de nem sequer me ter aproximado do banco de jardim onde ela lia, fui aquietar-me a seu lado, bem comportada, com a flor alva entre os dedos e a palma da mão suada, a tentar dominar o sobressalto que já então me causava o saber-me injustiçada e também perplexa por sentir o chão a mover-se debaixo dos meus pés, num repuxar diferente dos tremores de terra a que a ilha do Faial já me habituara. E ali fiquei emudecida, a cheirar no vento agreste que entretanto se levantara do lado do oceano à nossa frente o mesmo odor de sempre, numa mistura entrançada-entrelaçada de terra e mar,

de salsugem e gaivotas, de limos e verdete.

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