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18
Dez18

[LIVROS] | Raposa

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Uma das leituras que mais me surpreendeu este ano. Sabia que seria bom, mas não estava à espera que me causasse tanto impacto. Dubravka Ugresic tem, sem dúvida, um estilo muito próprio e inconfundível, que já lhe valeu, em 2009, uma nomeação para o Booker Prize e, em 2016, o Neustadt de Literatura, por muitos considerado uma importante distinção pré-Nobel. Nasceu numa vila da antiga Jugoslávia, zona que actualmente pertence à Croácia, e ensinou literatura russa durante muitos anos na Universidade de Zagreb, contudo as duras críticas que fez ao regime autoritário e nacionalista da época levaram a que Dubravka Ugresic abandonasse o país. Esta partida, tem uma grande influência na sua escrita, sente-se uma profunda mágoa em diversos momentos do livro, mágoa essa que nos faz querer saber mais sobre aquele momento da história da Europa.

Dois anos apenas depois da queda do Muro de Berlim, o meu pequeno país no Sul da Europa desfez-se em seis países ainda mais diminutos, e a nossa língua menor viu-se dividida em três ou quatro idiomas ainda mais insignificantes. E como se isto não fosse suficiente, num tempo em que o pós-Comunismo começou a florescer, desapareceram pessoas «inconvenientes», desapareceram artigos «inconvenientes», das estantes das bibliotecas foram retirados livros «inconvenientes» (incluindo - supresa, surpresa - os meus!), desterrados para caixotes de lixo ou para fogueiras pessoais ou de entidades mais abrangentes; desapareceram nomes de estradas, desapareceram monumentos, os governos dos países mais irrelevantes do sul europeu foram invadidos por multidões brutais que decidiram que tudo seria adaptado ao seu gosto e para seu benefício. Algumas pessoas foram expulsas, outras foram assassinadas, outras fugiram em grupos ou a sós para países vizinhos, para países longínquos, muitas famílias foram destruídas, muitos pais deram por si a viver num país enquanto os seus filhos ficavam noutro lugar qualquer. E também eu - após ter desenhado uma trajectória aleatória no meu mapa interior - dei por mim a viver no estrangeiro, a tornar-me uma pessoa com duas biografias, ou duas pessoas com uma biografia, ou três pessoas com três biografias e três línguas...
No momento da escrita de Raposa, Ugresic reside em Amesterdão, como imigrante, e é através da sua experiência que, com um olhar assertivo e sarcástico, sempre certeiro, reflete sobre diversos temas atuais, fazendo deste livro um tanto inclassificável e, também por isso, tão espectacular. Há romance, ensaio, biografia. Realidade e ficção, história e memórias, ironia e sarcasmo. Literatura, escritores, festivais literários. Há tristeza, revolta, exílio, e um sem fim de emoções que Dubravka Ugresic recusa, para sorte nossa, calar. O título deste livro tem um propósito, a raposa surge em diversos momentos, já que é uma figura com diversos simbolismos, muitas vezes usados como metáfora para a "vida literária" de um escritor.
 
Partindo de um conto sobre como as histórias dão origem à literatura, constrói-se uma estrutura de narrativas que se interligam de forma soberba. Li, nesta opinião do Público, uma metáfora que resume na perfeição o seu estilo: A estrutura dos romances é quase sempre episódica, resultando numa acumulação de partes narrativas e de polifonia de registos, num patchwork em construção. É tudo o que pretendo revelar-vos nesta opinião. Leiam Raposa e maravilhem-se com uma nova autora contemporânea, caso ainda não tenham lido os seus dois outros livros editados em Portugal, O Museu da Rendição Incondicional (Cavalo de Ferro, 2011) ou Baba Yaga Pôs Um Ovo (Teorema, 2010). Caso já tenham lido, não me parece que haja dúvida em relação à sua aquisição. Sim ou com certeza?
Sobre nós cai em permanência a cinza vulcânica do esquecimento, que lentamente nos enterra, como neve insolúvel. Somos todos notas de pé de página, muitos de nós nunca terão a hipótese de serem lidos, todos estamos mergulhados numa luta implacável e desesperada pelas nossas vidas, pela vida de uma nota de rodapé, por permanecermos à tona da água antes de, apesar dos nossos melhores esforços, sermos submergidos. Deixamos no mundo resquícios constantes da nossa existência, da nossa luta contra a vacuidade. E quanto mais vasta a vacuidade, mais violenta a nossa luta - mein kampf, min kamp, mia lotta, muj boj, mijn strijd, minun taistelu, mi lucha, my struggle, moja borba...
 
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