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Mais Mulheres Por Favor

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14
Mar18

[LIVROS] | O Nervo Ótico

 

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Apesar de ter muitos livros em espera na estante, tenho uma certa dificuldade em resistir a algumas novidades. Foi o que aconteceu com o romance de estreia da escritora argentina María Gainza, O Nervo Ótico, a minha primeira compra por impulso do ano, graças a este post. Como resistir a um livro que combina história da arte com crónica íntima, realidade com ficção? Eu não consegui e ainda bem.

 

Este é um livro curto, que se lê perfeitamente num dia (foi o meu caso), pelo que dar grandes detalhes do mesmo acabará por arruinar a experiência que é ler este livro. O Nervo Ótico está, a meu ver, realmente próximo de uma obra de arte, prende-nos o olhar, revolve-nos as entranhas, faz-nos reflectir, não ficamos os mesmos depois de o ler.

 

Adorei ler sobre pinturas e sobre a vida e particularidades de certos pintores (Cándido López, Hubert Robert, Gustave Courbet, Mark Rothko, El Greco...), ao mesmo tempo que ia vagueando pela mente da narradora: os seus pensamentos enquanto estava grávida, quando acompanhou o marido que fez quimioterapia, o seu pânico de voar, a quebra dos laços com uma amiga. As semelhanças entre a intimidade e o que uma pintura representa são tantas que, a partir de certo momento, deixamos de conseguir distinguir a realidade da ficção. 

 

A minha barriga cresceu no último mês e ainda não sei o sexo do bebé mas, seja qual for, para esta criança é tudo futuro, está tudo por ver e aqui dentro, em águas termais e amnióticas, encontra-se no melhor dos mundos. Lembro-me de uma cançãozinha ternurenta que a minha mãe me cantava para eu adormecer: "Que será, será?", dizia a letra, e eu sentia o coração apertar-se porque julgava que era uma pergunta, não uma forma de aceitar o destino. Como raios vou eu saber o que será?, pensava. Odiosa cantilena, estraguei a minha infância a tentar responder-lhe.

 

A escrita de María Gainza envolve-nos de forma perfeita, enquanto nos conduz numa viagem pela história da arte e pela história de nós próprios. Um exercício literário imperdível.

 

Envelhecer é não ter vontade de fazer nada, mas mesmo assim sinto curiosidade. Dantes não sentia nenhuma: aos quinze anos proclamava que queria morrer jovem, a ideia parecia-me romântica e literária, e chegar a velha algo pouco entusiasmante. Era uma adolescente cínica que gostava de declarar que a vida não era mais do que uma boa desculpa para se escrever histórias. Agora, que vi o que fui, quero ver o que serei. Quando chegar o momento de dar O Grande Salto, só espero estar em forma para o fazer.

 

08
Mar18

[TAG] | Março Feminino

No âmbito do seu projecto #marçofeminino, a Sandra criou uma TAG homónima muito original. Aqui ficam as minhas respostas, apenas com livros escritos por mulheres.

 

1. Aqueles dias do mês - Um livro que os homens nunca vão perceber.
Vou arriscar e escolher um livro que ainda não li, mas que quero começar a ler este mês, Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés. Acho que vai ser uma experiência de leitura magnífica.

 

2. Filha da mãe da depilação - Um livro que te arrepia só de pensar.
A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, de Svetlana Alexievich. Um livro que dificilmente esquecemos tal o impacto dos relatos que contém. São centenas de entrevistas realizadas a mulheres russas que fizeram parte da Segunda Guerra Mundial como atiradoras, cirurgiãs, enfermeiras, condutoras de tanques, pilotos, entre muitas outras funções bélicas. Tremendamente perturbador e emocionante.

 

3. Aquele batom vermelho que dá um up a qualquer look - Um livro que te pôs bem-disposta/o num dia cinzento.
Depois a Louca Sou Eu, de Tati Bernardi. Não o li em dias cinzentos, era verão e estava de férias, mas a forma despudorada com que Tati Bernardi se entrega neste livro, fazendo uso da própria desgraça com um fantástico sentido de humor, alegra qualquer pessoa num dia cinzento.

 

4. Cérebro Feminino - Um livro que parecia confuso, mas acabou por fazer muito sentido.
A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Foi preciso lê-lo uma segunda vez para compreender verdadeiramente a sua grandiosidade. Dêem a mão a G. H. e deixem-se levar pela sua epifania, é a minha recomendação para ler este livro.

 

5. "Mulheres não percebem de futebol, nem gostam de cerveja" - Um livro que vomita clichés.
Já não leio um livro assim há tanto tempo que não me consigo lembrar de nenhum que se encaixe nesta categoria.

 

6. Mini-saia - Um livro curto, mas bom.
O Nervo Ótico, de María Gainza. Li-o numa ida ao Porto num sábado, nas viagens de comboio. Em pouco mais de 160 páginas somos presenteados com memórias, ficção e arte. Uma combinação soberba com uma execução muito próxima da perfeição.

 

7. Bolsa de Mulher - Um livro com muita coisa dentro, que te provocou várias emoções.
As Coisas que Os Homens Me Explicam, de Rebecca Solnit. Nove textos sobre desigualdade de género, maravilhosamente bem escritos, carregados de ironia, humor e tremendamente pertinentes. Deixa-nos com vontade de revolucionar o mundo.

 

8. Mrs. Always Right - Como as mulheres têm sempre razão, escolhe um livro que aconselhas a toda a gente.
Novas Cartas Portuguesas, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa. Escrito por três mulheres e absolutamente maravilhoso quer pelo conteúdo, quer por todo o contexto social, político e histórico que o envolve. O meu preferido de 2017. Leiam-no, sem medos!

 

9. Mas porque é que tenho que gostar de cor-de-rosa? - Um livro que toda a gente gosta, menos tu!
Leite e Mel, de Rupi Kaur. Comecei por gostar dele na primeira parte, mas depois entrei numa espiral negativa e acabei a revirar os olhos a cada página que passava. Na época, tudo me pareceu artificial, forçado e repetitivo. Recordo-me de ter ficado extremamente revoltada por classificarem este livro como sendo poesia. Mas calma, admito que podia não estar num dos meus dias, por isso pretendo dar-lhe uma segunda oportunidade em breve, não comecem já a apedrejar-me. Ainda há esperança.

 

10. Sutiã nosso de cada dia - Um livro que te incomodou ou um livro que foi um alívio chegar ao fim.
Atos Humanos, de Han Kang. Incomodou-me devido à violência que envolveu o massacre de Gwangju, na Coreia do Sul (1980), e que é relatada ao longo deste livro através de várias vozes. O segundo capítulo deste livro é deveras perturbador.

 

11. Ir à manicure - Toda uma curiosidade sobre um livro que anda na boca do povo, mas ainda não leste.
Little Fires Everywhere, de Celeste Ng. Em 2017, houve um enorme buzz em torno deste livro, em particular no Goodreads e no Instagram. A Relógio D'Água já confirmou a sua edição e haverá também uma adaptação para série televisiva, onde Reese Witherspoon e Kerry Washignton serão produtoras executivas e atrizes. Aguardemos.

 

12. Fitas e lacinhos - O livro mais girly que já leste.
Mulherzinhas, de Louisa May Alcott. Não sei se girly será o termo mais apropriado para este livro, mas foi o primeiro que me veio à cabeça. Que saudades das irmãs March!

 

13. Girl Power - Uma autora que é uma mulher do caraças. Explica porquê.
Vou escolher três: as Três Marias, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, que escreveram, a seis mãos, as Novas Cartas Portuguesas, publicado em 1972 em plena ditadura.

 

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Novas Cartas Portuguesas é um verdadeiro grito de revolta que coloca o dedo na ferida, sem medo e com uma enorme coragem, ferida essa que é constituída pelos mais variados preconceitos e injustiças intrínsecos à sociedade da época e que se vinham arrastando ao longo de séculos.

A decisão de o publicar integralmente resultou na recolha e destruição da primeira edição por parte da censura e valeu-lhes um processo judicional. Este processo teve destaque internacional, e as Três Marias tiveram várias figuras de destaque a defender a sua causa, entre elas, Simone de Beauvoir. Tudo isto me está a recordar que, sim, estou a dever-vos um texto com mais curiosidades sobre este livro magnífico e que não pode cair no esquecimento.

 

14. Mulheres nos livros - Indica três livros com personagens femininas fortes.

A Amiga Genial, de Elena Ferrante (tetralogia). Elena Ferrante deu vida a duas mulheres incríveis que acompanhamos desde a infância até à velhice. Lila e Lenú ficaram para sempre no meu coração e preciso de as reencontrar com urgência.

 

O Livro de Emma Reyes, de Emma Reyes. Ao longo de vinte e três cartas, Emma Reyes revela como viveu a sua infância e juventude. Um relato repleto de pormenores que mostram a miséria e falta de recursos (materiais, mas sobretuto emocionais) que caracterizaram o seu crescimento, mas que conta também com episódios divertidos.

 

Jane Eyre, de Charlotte Brontë. Este livro teve a capacidade de me transportar para a vida de Jane e fez-me seguir os seus passos. Jane Eyre é uma mulher íntegra e fiel aos seus princípios, mas que também tem defeitos, e vê-la crescer, formar a sua personalidade e apaixonar-se arrebatou-me verdadeiramente.

 

15. Mulheres nos filmes - Indica três filmes com personagens femininas fortes.
Wonder Woman, Patty Jenkins. Um filme incontornável e inspirador que veio deixar ainda mais evidente a importância da presença das mulheres em filmes de super-heróis. Diana Prince/Wonder Woman desarma-nos com a sua ingenuidade e valentia, e prova-nos que o amor, a honestidade e a honra são imprescindíveis, sobretudo nos tempos mais difícieis, onde a violência pode parecer a saída mais fácil.

 

Mustang, Deniz Gamze Ergüven (última foto do header deste blog). Cinco irmãs orfãs vivem numa pequena vila da Turquia com o tio e a avó. À medida que vão crescendo e se tornam mulheres, vêem-se confrontadas com a falta de liberdade e são constantemente punidas pelos seus actos imorais. Cada uma, à sua maneira, luta pela liberdade, apoiando-se mutuamente e recusando-se a serem vergadas pelos costumes retrógrados que lhes são impostos.

 

Mad Max: Fury Road, George Miller. A Imperatriz Furiosa é uma das minhas personagens preferidas de sempre. Um filme repleto de acção, com Charlize Theron a interpretar uma mulher forte e complexa, peça central deste filme.

 

16. Ir em bando ao WC - Indica quem quiseres para responder.
Sintam-se livres para levar a TAG e responder.

 

Obrigada à Sandra por esta iniciativa e pelo convite!

 

07
Mar18

[LIVROS] | Jane Eyre

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Jane Eyre, de Charlotte Brontë, foi a leitura do Clube dos Clássicos Vivos para os meses de Janeiro e Fevereiro. Vamos discuti-lo no dia 17 de Março, em Sintra, por isso, ainda vão mais do que a tempo de o ler e aparecer por lá. Os encontros do Clube são sempre uma animação e uma experiência de partilha e troca de opiniões incrível.

 

Esta escolha agradou-me desde o início por dois motivos, por ser um grande clássico escrito por uma mulher e por já se encontrar na minha estante (por ler) há demasiado tempo. Apesar do meu entusiasmo inicial, não estava à espera de gostar tanto desta leitura. Acredito que o li na fase certa da minha vida, já que este livro me serviu de refúgio durante um dos meses mais difíceis de sempre. De cada vez que lhe peguei, senti-me a mergulhar nesta história, como se seguisse Jane a cada passo, nada mais havia à minha volta, foi um verdadeiro bálsamo para a vida real.

 

Creio que este clássico desperta sentimentos mistos nos leitores, há os que o adoram e os que não se arrebatam com Jane e toda a história acaba por lhes passar um pouco ao lado. O facto deste livro ter tido a capacidade de me absorver por completo, fazendo-me sentir cada dor e cada momento de felicidade de Jane Eyre como se fossem meus, fez com que tudo me parecesse perfeito: a escrita (apesar desta edição não ser das melhores), o desenrolar da história e até mesmo os clichés com que nos vamos deparando ao longo desta leitura, que os há, é verdade, no entanto, nem por uma vez me fizeram revirar os olhos, produziram sim em mim uma sensação de conforto.

 

A história que Jane Eyre nos vai contando, na primeira pessoa, desde os tempos em que, em criança, vive na casa da tia e dos primos, local onde nunca foi bem recebida, passando pelo colégio interno de Lowood até se tornar perceptora, está tão bem descrita e articulada a cada capítulo, que a sua fluidez encontra-se realmente próxima da perfeição. Todos estes ingredientes provam-nos inequivocamente que Charlotte Brontë escreveu um romance maravilhoso, que perdura e, sem dúvida, perdurará ao longo dos tempos.

 

Esta foi uma experiência de leitura tão pessoal, íntima e introspectiva que se tornou complexo colocar por escrito tudo o que esta me fez sentir, resta-me apenas acrescentar que Jane Eyre fez-me verdadeiramente feliz e deixou-me cheia de esperança e a transbordar de amor, apesar dos tempos sombrios que estava a viver. Por este motivo, este livro terá para sempre um lugar especial no meu coração e irei, certamente, ficar com os olhos a brilhar de cada vez que o recordar.

 

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