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Mais Mulheres Por Favor

31
Jan18

[LIVROS] | O Livro de Emma Reyes

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O Livro de Emma Reyes foi mais um dos casos em que me senti hipnoticamente atraída por um livro. A capa magnífica faz adivinhar um conteúdo soberbo e não desilude, bem nos diz a Quetzal, autores que não perdoam.

 

Emma Reyes foi uma pintora colombiana cuja infância nos é narrada ao longo de vinte e três cartas dirigidas ao amigo Germán Arciniegas, quando esta já se encontra a viver em França. Aos cinquenta anos (1969), Emma relata a Gérman a infância miserável que viveu, primeiro num quarto, onde era trancada à chave durante longas horas, juntamente com a irmã Helena, e depois num convento, onde viveu durante quinze anos.

 

Apesar da distância temporal que separa a escrita destas cartas do tempo que relata, Emma Reyes descreve pormenorizadamente o que lhe aconteceu, ou pelo menos, aquilo que pretende que saibamos que lhe aconteceu. Há sempre uma aura de mistério em relação às pessoas que se cruzaram com ela durante a infância e juventude, mas especialmente sobre quem eram os seus pais. Há várias teorias, mas não há certezas.

A Dona María saía quase todos os dias e ganhou o costume de fazer-se acompanhar quase sempre pela Helena, e a mim deixava-me ao cuidado do miúdo com andar de pato que se sentava ao pé de mim a brincar com o pião. Um dia pôs-mo a dançar em cima da mão e tive tanto medo que desatei a chorar. Noutro dia perguntou-me se eu tinha pai e mãe e eu perguntei-lhe o que era isso e ele disse-me que também não sabia.

O conteúdo destas cartas é tremendamente duro, Emma não poupa as descrições e é quase possível sentirmos o cheiro nauseabundo do balde (que servia de penico) que a pequena Emma carregou durante dias a fio, todas as manhãs, até à esterqueira. É paupável a dor e a inocência que caracterizaram a sua infância, várias são as vezes em que sentimos uma necessidade urgente de pegar naquela criança e dar-lhe colo, conforto, amor. Apesar da dureza do relato, Emma Reyes conta-nos também diversos episódios divertidos e cheios de humor, próprios da inocência das crianças, que sabem apenas o que lhes contam e que acreditam em tudo piamente.

Eu continuava agarrada às plantas e com a cara colada à terra; creio que nesse momento aprendi, de maneira instantânea, o que é a injustiça e que uma criança de quatro anos pode sentir perfeitamente o desejo de já não querer viver e de ser devorada pelas entranhas da terra. Esse dia foi, sem dúvida, o mais cruel da minha existência.

Uma história incrível que apenas foi publicada em 2012 e que de imediato se tornou num clássico. Para além das vinte e três cartas, este livro conta também com dois textos finais sobre Emma Reyes, escritos pelo seu amigo Gérman Arciniegas e por Diego Garzón, o último com muitos apontamentos sobre o que aconteceu a Emma depois do período descrito nas cartas, e com um fac-símile da primeira carta. Recomendo de olhos fechados. Maravilha.

 

29
Jan18

[LIVROS] | Eu Matei Xerazade

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Joumana Haddad é uma escritora e poeta libanesa, criadora da primeira revista erótica do mundo árabe - Jasad (corpo), motivos mais do que suficientes para querer saber mais sobre esta mulher. Este livro foi publicado em Setembro de 2017 e faz parte da Colecção Mulheres de Palavra, da Sibila, constituído por outros livros que também me deixaram muito curiosa, especialmente Só Acontece aos Outros - Histórias de Violência, de Mariana Antónia Palla.

 

Eu Matei Xerazade é um relato muito pessoal de Joumana, desde que nasceu até ao presente, onde nos conta que desde muito nova a insaciabilidade, insubordinação e autoconsciência foram três traços essenciais da sua personalidade. Algo que contribuiu para que estes traços perdurassem e ficassem para sempre associados à sua pessoa foi o facto de ter começado, desde muito nova, a ler os livros da biblioteca do pai, escritos em francês, sem qualquer filtro imposto por este. Joumana leu desde Marquês de Sade a Stendhal, Flaubert, Sartre, Camus, Beauvoir, Dostoiévski, Gogol, Nabokov, Kafka, Rilke, Pessoa, etc.

Adorava ler por muitas razões: lia para respirar; lia para viver (tanto a minha vida como a dos outros); lia para viajar; lia para escapar a uma realidade brutal; lia para abafar as explosões da guerra do Líbano; lia para ignorar os gritos dos meus pais, o seu dia-a-dia de discussões e sofrimentos; lia para alimentar a minha ambição; lia para ganhar forças; lia para afagar a minha alma; lia para esbofetear a minha alma; lia para aprender; lia para esquecer; lia para recordar; lia para compreender; lia para ter esperança; lia para planear; lia para acreditar; lia para amar; lia para desejar e para me excitar...

E lia, especialmente, para ser capaz de honrar a promessa que tinha feito a mim mesma de que, um dia, a minha vida seria diferente. (...)

Ao longo deste livro, Joumana tenta desconstruir as ideias preconcebidas que os ocidentais têm acerca da cultura oriental, ao mesmo tempo que coloca o dedo na ferida, referindo tudo o que ainda há por fazer no mundo árabe. Uma das coisas que mais me agradou em Joumana foi a sua postura optimista em relação ao futuro, indicando-nos uma lista enorme de mulheres árabes ensaistas, artistas, poetisas, realizadoras, entre outras. Este livro termina com um magnífico poema de oito páginas, uma tentativa de autobiografia.

Então porque é que escrevo poesia? Porque é que não escrevo romances, como muitos me perguntam? Porque "a poesia é a prova de que a vida não basta", como disse Fernando Pessoa. Porque a poesia é uma URGÊNCIA, uma história intensa, apaixonada, sem preliminares, que se adequa à minha alma impaciente. Porque ela é um infindável duelo entre eu e eu. Porque me ajuda a sentir-me viva. Porque é uma multiplicação da vida. Porque é a minha carne como eu gosto dela: sem a pela protectora.

Apesar de não ter concordado com todas as opiniões de Joumana, muitos mais foram os pontos de convergência, sobretudo porque acreditamos no mesmo: É mais do que tempo para que a mulher VIVA em vez de simplesmente suportar a vida, e que se liberte da imagem da vítima. Porque a mulher não é uma vítima, e deveria parar de se ver e de se projectar como uma vítima. Ela precisa de se aceitar e amar. Recomendo esta leitura, no entanto, queria salientar que fiquei com pena de todos os temas terem sido abordados de forma superficial, as 166 páginas deste livro facilmente se poderiam transformar em 300 ou 400 dada a riqueza da vida da autora.

Se eu tivesse (ainda posso vir a ter) uma filha (os meus dois maravilhosos filhos fogem dos livros como da peste), oferecer-lhe-ia, no seu décimo segundo aniversário, esses volumes tão esclarecedores como perturbantes. É um dos conselhos que dou às mulheres que me pedem orientações, tomando o meu entusiasmo desenfreado por uma espécie de sabedoria de guru: livros, respondo-lhes.

18
Jan18

[LIVROS] | Fábrica de Melancolias Suportáveis

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Fábrica de Melancolias Suportáveis é o primeiro romance de Raquel Gaspar Silva, natural de Évora, que tem também o projecto de poesia #domesticliteraturemovement, onde publica com o pseudónimo de rawquel (podem ver mais aqui, instagram: @rawquel_poetatura). O título do livro cativou-me desde que o vi pela primeira vez, mas confesso que não criei grandes expectativas, apenas sentia que havia uma forte possibilidade de gostar e uma enorme curiosidade por conhecer a obra de estreia desta escritora portuguesa.

 

Felizmente, fui surpreendida pela escrita marcante e pelos pormenores tão tipicamente portugueses que encontramos em cada página, como se nos sentíssemos em casa de tão familiar que é, com tudo o que de bom e de mau esses pormenores contenham. É um retrato de Portugal no pré e pós 25 de Abril que, apesar de não ter vivido na primeira pessoa, é facilmente identificável já que hábitos, gestos e tradições tão intrinsecamente nossos não desaparecem por mais décadas que passem, tendem a perpetuar-se. 

[Nos lugares que parecem esquecidos de todos, a vida toma um rumo descontrolado. Não há medida para o absurdo e o tempo desenvolve-se com imperfeições. As pessoas aceitam a loucura, são a loucura, frutificam loucura. Mesmo fugindo do epicentro, a loucura atravessa toda a geografia para se depositar no mais íntimo do fugitivo, tornando-se normalidade e racionalidade. Quem foge, é louco. Quem fica, é louco. É a vida natural, cíclica. É a vidinha.]

Pela visão de Carlota, acompanhamos o desenrolar das vidas de uma família do Alentejo, bem como as tradições, os preconceitos e as obrigações que caracterizavam a sociedade da época. Senti uma forte ligação com Carlota e adorei cada acto e cada decisão sua. 

Carlota chorava copiosamente, porque as ossadas da avó iriam confundir-se com tantas outras dos despojos do pé de carneiro. Era muito pequena para encontrar outro motivo para chorar, haveria de sentir verdadeiramente a falta da avó mais tarde, quando nenhum outro compreendesse os motivos da sua rebeldia e haveria de chorá-la silenciosamente até não conseguir sossegar o peito.

A obra de estreia de Raquel Gaspar Silva conquistou-me durante a sua leitura, mas também quando soube que se trata de uma obra ficcionada contada com base numa história que Raquel conhecia. Pretendo ler mais da autora assim que forem publicados mais romances (espero que não falte muito tempo).

[O destino é simplesmente biografia. A sentença da vida é o material que nos é dado para cumprirmos a nossa tarefa, andando ou correndo pelo caminho que escolhemos. Não há sentidos secretos, a vida é viagem e luta para se morrer depois. Para quê mascarar a verdade se todos os objetos do mundo têm fim? Até os menores movimentos alcançam uma paragem.]

 

09
Jan18

[LIVROS] | Tudo que Existe Louvará - antologia

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Tudo que Existe Louvará, de Adélia Prado, foi a primeira leitura de 2018 e o meu primeiro livro para o Projecto Ler Poesia. Em 2017, li um ebook de Adélia Prado (O coração disparado) que me deixou cheia de vontade de ler mais poesia sua, pelo que aproveitei para comprar este livro na Feira do Livro. Trata-se de uma antologia da poesia de Adélia Prado organizada por José Tolentino Mendonça e Miguel Cabedo e Vasconcelos, que reúne poemas de 7 livros.
 
Curiosamente, não funcionou tão bem comigo como O coração disparado, apesar de este até ser um dos livros que compõem esta antologia. Podem ter sido os poemas escolhidos ou simplesmente a minha disposição ao lê-lo, mas Tudo que Existe Louvará não me causou tanto impacto como o primeiro contacto com Adélia Prado havia causado. Reconheço-lhe a qualidade (inquestionável), mas não me deixou o coração a transbordar de amor. Gostei muito de alguns poemas, mas raramente algum me tocou profundamente, quando era precisamente o que procurava ao ler este livro.
 
Apesar da mais que óbvia ligação entre a poesia de Adélia e a sua religiosidade, creio que esta vertente foi explorada em demasia nesta antologia, ficando de fora os poemas que mais me agradam. Assim, foi com um certo desapontamento que fui progredindo na leitura. 
 
Esperava mais face ao que já conhecia de Adélia Prado, mas agora tenho a certeza de que prefiro ler a sua obra completa a ler uma antologia. Ainda assim, não deixo de vos recomendar este livro, porque a poesia desta autora tem muito valor, apenas aconselho a que o leiam numa fase mais avançada na vossa vida enquanto leitores de poesia (se é que isso existe...), julgo que é pouco provável que vos arrebate à primeira leitura. Leiam primeiro O coração disparado e, se gostarem, depois progridam com calma no resto da sua obra.
 
O meu poema preferido do livro, o género de poema que esperava encontrar mais frequentemente ao longo desta antologia:
DOLORES
 
Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescidos do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
nem tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência..."
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fosse objeto de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham o sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.
 
Deixo também o meu poema preferido de O coração disparado (que não foi escolhido para fazer parte de Tudo que Existe Louvará):
TEMPO
 
A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.
05
Jan18

[DOCUMENTÁRIOS] | She's Beautiful When She's Angry

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She's Beautiful When She's Angry é um documentário de 2014, realizado por Mary Dore, sobre o nascimento e o percurso do movimento feminista nos Estados Unidos, nas décadas de 60 e 70, e conta com os testemunhos das mulheres impulsionadoras do movimento na época.

 

Várias foram as lutas destas mulheres incríveis. Algumas foram ganhas na altura, outras ainda estão a ser batalhadas na actualidade. Vê-las em fotos e vídeos da época e actualmente, reflectir sobre o que fizeram e as dificuldades que enfrentaram ao longo de vários anos, quer face aos outros, quer entre si próprias, é absolutamente maravilhoso e inspirador.

 

Apesar de ter uma certa noção do que havia sido o início do movimento feminista e das suas motivações, estava longe de imaginar todo o contexto deste movimento, os nomes envolvidos, os livros, as marchas, os discursos, a coragem, o sentido de humor. A união. Provavelmente já irei com algum atraso, dado que o documentário faz 4 anos este ano, mas: não deixem de o ver.