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Mais Mulheres Por Favor

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12
Out17

[EVENTOS] | DOCLISBOA'17

O Festival Internacional de Cinema Doclisboa deste ano decorre entre os dias 19 e 29 de Outubro em diversos espaços como a Culturgest, o Cinema São Jorge, o Cinema Ideal, e conta com 231 filmes, de 44 países. Esta é a 15ª edição do festival dedicado ao documentário com uma missão fantástica que podemos encontrar no site.

O Doclisboa pretende questionar o presente do cinema, em diálogo com o seu passado e assumindo o cinema como um modo de liberdade. Recusando a categorização da prática fílmica, procuram-se as novas problemáticas presentes na imagem cinematográfica, nas suas múltiplas formas de implicação no contemporâneo. O Doclisboa tenta ser um lugar de imaginação da realidade através de novos modos de percepção, reflexão, novas formas possíveis de acção.

 

Um dos documentários que me chamou a atenção, e que conto assistir, foi Quem é Bárbara Virgínia? da realizadora Luísa Sequeira. Bárbara Virgínia é o nome artístico de Maria de Lourdes Dias Costa, cineasta, actriz e locutora de rádio, nascida em Lisboa, a 15 de Novembro de 1923, e que foi a primeira mulher em Portugal a realizar um filme, na década de 40.

 

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Bárbara Virgínia tinha apenas 22 anos quando, em Agosto de 1946, o seu filme Três dias sem Deus se estreou nas salas de cinema portuguesas. Como se isto não fosse suficientemente espectacular, Três dias sem Deus foi o primeiro filme português a ser nomeado para o Festival Internacional de Cinema de Cannes (a par de Camões, de Leitão de Barros), precisamente na primeira edição deste festival, que ocorreu entre Setembro e Outubro de 1946.

 

Quem é Bárbara Virgínia? passa nos dias 25 de Outubro (18.45) no Cinema São Jorge e 29 de Outubro (14.00) na Culturgest, em conjunto com Três Dias sem DeusAldeia dos Rapazes, sobre uma instituição de acolhimento infantil. Bilhetes aqui (4€).

 

11
Out17

[LIVROS] | A Primeira Pessoa e outras histórias

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Este foi o primeiro livro que li de Ali Smith e, apesar de não ter ficado completamente rendida à sua escrita, fiquei encantada com algumas passagens. A Primeira Pessoa e outras histórias é um livro composto por doze contos, dos quais adorei particularmente O Verdadeiro Conto, que parte de uma conversa entre dois homens, um mais velho e outro mais novo, sobre a diferença entre o romance e o conto. O mais novo diz que o romance não passa de uma puta velha e flácida enquanto o conto é uma ágil deusa, uma elegante ninfa.

 

Não sendo o género literário que me arranca mais suspiros, fiquei absolutamente fascinada com a forma que O Verdadeiro Conto exalta as qualidades do conto face ao romance, deixando-me com vontade de dar mais oportunidades aos livros de contos. Destaco especialmente a parte final, onde nos são apresentadas as opiniões de alguns escritores sobre o conto.

Grace Paley diz que optou por escrever apenas contos, porque a arte é demasiado extensa e a vida demasiado curta, porque os contos são, por natureza, acerca da vida, e porque a própria vida é sempre baseada em diálogo e discussão.

Outro dos contos que mais gostei foi Fidélio e Bess, sobre a relação entre duas mulheres e cheio de referências às óperas Fidélio e Porgy and Bess. Este conto, que tem tanto de belo quanto de triste, fez-me sentir profundamente conectada a esta história de poucas páginas, uma das razões pelas quais fiquei com vontade de ler mais obras de Ali Smith.

Estamos condenadas em terra e condenadas no mar, tu e eu; tão condenadas quando seguramos o braço uma da outra no metro como quando discutimos sobre cultura no carro da pessoa com quem vives; tão condenadas num bar sentadas em frente uma da outra ou lado a lado no cinema, na ópera ou no teatro; tão condenadas como quando nos abraçamos intensamente nas várias camas dos vários quartos quase iguais onde vamos para ter o sexo que a pessoa com quem vives não sabe que temos.

"Writ" consolidou, por fim, a minha decisão em relação à escritora escocesa, nascida em Inverness. Relata o encontro entre uma mulher e o seu eu de catorze anos de uma forma tão simples e cativante, algo que, sem dúvida, sinto falta na maior parte das vezes em que leio contos, já que tantas são as vezes em que, rapidamente, se perde o sentido, a finalidade e a ligação com a história e, quando damos por nós, já estamos no início de outro conto. Para minha felicidade, a posterior leitura de Outono comprovou que Ali Smith é uma escritora contemporânea para acompanhar bem de perto.

 

09
Out17

[DISCOS] | Burn Your Fire For No Witness

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Com um dos melhores títulos de sempre, Burn Your Fire For No Witness (2014), de Angel Olsen, ganhou lugar cativo no meu coração para toda a eternidade, arrisco-me a dizer.

 

Este é o segundo álbum de Angel Olsen e foi pelo burburinho que se gerou em torno do mesmo, por altura do seu lançamento, que fiquei a conhecer e a adorar esta cantora. Ouvi este disco tantas vezes que lhe decorei as músicas e a sequência, já que o devorava de uma ponta à outra. Três anos passados, esta edição simples e muito bonita faz, finalmente, parte da minha colecção, faltando-me apenas vê-la ao vivo.

 

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Não há músicas menos boas neste disco e, em cada uma delas, sentimos vontade de cantar em conjunto com Angel Olsen, a uma só voz, de peito aberto e coração livre, com a mesma força que nos é transmitida a cada música. Um dos melhores discos de sempre.

 

As minhas preferidas fazem quase todas parte da primeira metade do disco, a mais intensa e que mexe mais comigo: Unfucktheworld, Forgiven/Forgotten, Hi-five e High & Wild. A segunda metade é mais calma mas igualmente espectacular, destaco: Stars, IotaWindows.

 

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Podem ver no instagram (@morewomenplease) algumas das minhas letras preferidas deste álbum, bem como dos que já falei ou irei falar por aqui.

 

04
Out17

[LIVROS] | Depois a Louca Sou Eu

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Aqui está mais um espectacular livro de crónicas de uma mulher nascida no Brasil, desta vez em São Paulo, Tati Bernardi, colunista do jornal Folha de S. Paulo e guionista permanente da Rede Globo, que tanto me fez rir, algo que é muito invulgar quando leio.

 

Tati Bernardi prometeu escrever um livro sobre o medo durante uma viagem de avião assustadora à qual julgou não sobreviver. Felizmente para Tati (e para nós), tudo terminou bem e fomos presenteados com este hilariante Depois a Louca Sou Eu editado em Portugal pela Tinta-da-China, que já tem um lugar reservado no meu coração graças a livros como este e o da Maria Ribeiro, sobre o qual falei aqui há um par de semanas.

 

Depois a Louca Sou Eu relata, numa série de crónicas, os ataques de pânico que Tati sofreu desde miúda, as coisas que pensa sobre os mesmos, as experiências que teve com a família e nos seus relacionamentos graças à sua ansiedade.

Não tem como sair daqui. Está quente. Eu estou naquele segundo exacto do horror: não tem como sair daqui, minha fome virou enjoo, minha ansiedade virou moleza, minha força virou necessidade de me recolher, minha cabeça dói um pouco e meu coração acelera muito para conter um início de desmaio. Está calor e tudo é muito amarelo e seco e nada conforta.

E então começa o pesadelo do "e se". E se eu ficar louca? E se eu desmaiar, vomitar, morrer, secar, sucumbir, gritar, machucar alguém, urinar nas calças, fizer cocô pelas orelhas, suar pelos olhos?

Ensaio incalculáveis vezes, mentalmente, como vou pedir ajuda. "Taxita, eu tô tendo um ataque de pânico, você pode, por favor, ligar para meu plano de saúde e avisar para virem me retirar daqui com um helicóptero equipado com soro, Rivotril e crianças tocando harpa? Eu sei que isso não existe, mas, por favor, finja que está ligando."

Tati Bernardi reserva algumas crónicas para falar sobre os medicamentos que tomou e as peripécias que causavam a toma (ou não) dos mesmos, bem como as terapias a que recorreu, umas menos convencionais do que outras, fazendo sempre uso de um sentido de humor incrível e que muito admiro.

É importante dizer que só viajo à noite e que, naquele dia, desde que acordo, tomo 0,5 mg de Rivotril sublingual a cada três horas. É importante dizer que dez dias antes de viajar, quando começo a sentir os sintomas de forma quase insuportável (e começo a pensar em seiscentas e setenta e oito maneiras de cancelar a viagem, pois só isso me acalma), já estou tomando 0,5 mg de Rivotril a cada seis horas. Então, meu amigo, quando apagam as luzes do avião e não há mais nada a ser feito, eu durmo como se pedras hibernassem.

Diversas foram as vezes em que dei por mim a não conseguir conter uma sonora gargalhada, contudo, aviso já que é difícil mostrar com eficácia as piadas dos excertos que mostrei antes, já que o contexto da crónica é muito relevante e as mesmas resultam muito bem quando estamos envolvidos no espírito deste livro. Depois desta leitura tornei-me uma admiradora de Tati Bernardi sobretudo pela forma despudorada com que se entrega neste livro, fazendo uso da própria desgraça com um fantástico sentido de humor. Depois a Louca Sou Eu é também uma forma descomplicada de termos noção da dificuldade que é viver diariamente com pânico de tudo, da luta interna constante que a ansiedade implica e de quão fácil pode ser desistir e ceder ao uso exclusivo de medicamentos que, por vezes, podem alterar a própria identidade. Que venham mais livros de Tati.

Não aguento muito tempo dentro de casa, não aguento muito tempo na cama, não consigo mais visitar nenhum familiar por mais de uma hora, não suporto mais nenhuma visita por mais de uma hora, os melhores amigos, por mais íntimos que sejam, expulso depois de um tempo. Nem gosto muito da minha rua. Então de onde vem a idealização de que preciso desses lugares mais que tudo e sempre e o tempo todo? De que todo o dia é uma eterna necessidade de voltar para esse lugar de onde me expulso porque também não o aguento? O pânico é a necessidade urgente de uma cama que não existe.

(...) Meu psiquiatra me disse que não sou fraca, sou humana, mas, poxa, às vezes é bem fraco ser humano. Preciso gostar dessa parte, preciso gostar dessa parte. Tirar meu salto alto fincado no meu próprio peito. Agora sinto o efeito de todos os sublinguais que tomei. Quantos foram hoje? O céu está bem limpo.

 

02
Out17

[LIVROS] | Nada a Dizer

 

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Confesso a minha ignorância em relação a Elvira Vigna até à data da sua morte, em Julho deste ano. Elvira Vigna, nascida em 1947 no Rio de Janeiro, foi escritora, jornalista e ilustradora e era, segundo a imprensa, uma das vozes mais originais da literatura brasileira, premiada por diversas vezes. Na época da sua morte, tomei nota do seu nome e acabei por adquirir Nada a Dizer, o único livro da escritora editado em Portugal, pela Quetzal.

 

Nada a Dizer descreve uma história de traição e como um casal de sessenta anos  sobrevive à mesma, do ponto de vista da mulher (traída), a narradora. Trata-se de um relato contemporâneo de uma história de adultério e das suas consequências num casal já com alguma idade, com uma relação sólida e duradoura. O que muda na comunicação entre os envolvidos e neles próprios? Elvira Vigna consegue, com uma história comum (desde sempre e, provavelmente, para sempre), analisar e tirar conclusões muito relevantes sobre a tentativa de entendimento amoroso entre indivíduos nesta situação nos dias que correm, sobretudo num casal com uma longa história.

Depois fiquei com outra imagem. A do carro alugado por Paulo. A de sua vontade, que reconheço como sendo a de uma vida inteira, e que também é a minha, de sair, de ir, do novo, do largar tudo para trás e sentir o tão batido mas sempre maravilhoso vento na cara.

Este livro faz um balanço muito pertinente entre a incompreensão de ser traída, a raiva e o ódio face ao outro, e a reflexão sobre o que será daqui para a frente, de tudo o que, aparentemente, possa ter sido abdicado em detrimento da outra pessoa e dos impactos que tal tem na alma humana, exemplo disso é a forma como a narradora encara o contacto com os outros, receando que estes possam adivinhar o que aconteceu. 

Não posso criticá-lo por querer outra mulher. Mas vejo a desistência, o cinismo nesse achar que tudo bem manter amante e a mim, separadas uma da outra. Se Paulo fosse do tipo que pensa antes de agir, eu diria que ele pensou com cinismo. Mas acho que não pensou, nem com cinismo nem sem.

eu só tinha um caminho: admitir que esse olhar de um outro, que eu temia tanto, era um olhar que eu dava para mim mesma. Não existia esse outro. Eu ia ter de enfrentar, sem metáforas facilitadoras, um problema que datava desde antes do evento N., desde antes de eu conhecer Paulo, desde minha infância. Eu ia ter de me ver, eu a mim mesma, sem as histórias que eu fazia a meu respeito, sem meus filmes, nuinha.

A escrita é fluída e mordaz, repleta de requintes de ironia e crueza, algo que me deixou com vontade de ler mais obras de Elvira Vigna. Resta aguardar que cheguem mais livros seus a Portugal.

 

WOOK - www.wook.pt

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