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Mais Mulheres Por Favor

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18
Set17

[LIVROS] | A Vegetariana

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A Vegetariana, de Han Kang, foi anunciado como vencedor do Man Booker Prize em Maio de 2016 e, em Setembro do mesmo ano, quando foi publicado em Portugal pela Dom Quixote decidi lê-lo. Como poderia ter Han Kang vencido Elena Ferrante?, era a questão que se impunha.

 

Lembro-me que, na época, gostei do livro, mas não senti a empatia que esperava ter por um livro vencedor do Man Booker Prize. Provavelmente, senti que adorar este livro seria trair Ferrante, a minha obsessão literária do momento, pelo que a leitura não fluiu da melhor das formas, ainda assim, percebi que o livro tinha realmente potencial. Com o nascimento do Mais Mulheres Por Favor, decidi que este seria um dos livros que iria reler e publicar uma opinião. Esta releitura resultou, sem dúvida, muito melhor! Compreendi verdadeiramente a qualidade de Han Kang e fiquei a ansiar que fosse publicado o segundo livro da escritora em Portugal: Atos Humanos, também pela Dom Quixote, e, também, já na pilha de livros por ler cá de casa. 

 

A Vegetariana divide-se em três partes, narradas por três pessoas que assistem à transformação da personagem principal deste livro, Yeong-hye, de diferentes perspectivas: o marido, o cunhado e a irmã. No início deste livro, Yeong-hye, após ter tido um sonho, decide deixar de consumir alimentos de origem animal, carne, peixe, ovos, leite, etc., desfazendo-se também da roupa que era feita de couro, perante o olhar estupefacto do marido, com o qual mantém uma relação desprovida de amor. É necessário ter em conta que, na cultura sul-coreana, um acto destes não é visto com bons olhos, exemplo disso é uma frase que lhe é dirigida, num jantar de negócios com o patrão do marido, quando esta anuncia que não come carne: Bem, devo confessar que me dou por muito feliz por nunca ter sido obrigado a comer com um verdadeiro vegetariano. Detestaria ter de partilhar uma refeição com alguém que considera repugnante comer carne, só por ser essa a sua opinião pessoal, não concordam?

 

Apesar de nos ser natural alguém tornar-se vegetariano, compreendemos, com o desenrolar da primeira parte deste livro, que se passa algo mais profundo com Yeong-hye. Para além do marido referir que esta perdeu muito peso, assistimos a momentos em que esta está completamente letárgica, enquanto, noutros, age de forma violenta, apesar da sua fraqueza física. Em alguns momentos da primeira parte do livro, é-nos mostrado o que Yeong-hye está a pensar.

A única coisa que me dói é o peito. Há qualquer coisa presa no meu plexo solar. Não sei o que será. Tem lá estado sempre nos últimos tempos. Apesar de ter deixado de usar sutiã, estou sempre a sentir este alto. Por mais fundo que tente respirar, não desaparece.

É uma rede de gritos e gemidos entrelaçados, sobrepostos em camadas, que forma aquele alto. Por causa da carne. Comi demasiada carne. As vidas dos animais que comi alojaram-se todas ali. Sangue e carne, esses corpos despedaçados estão espalhados por todos os recantos do meu corpo e, apesar dos resíduos físicos terem sido expelidos, as suas vidas teimam em permanecer dentro de mim.

Apetece-me gritar uma vez, só mais uma vez. Apetece-me atirar-me por aquela janela escura como breu. Talvez assim conseguisse acabar de vez com este nó dentro do meu corpo. Sim, talvez resultasse.

Ninguém pode ajudar-me. Ninguém pode salvar-me. Ninguém pode fazer-me respirar.

A segunda parte do livro é muito interessante em termos literários. Han Kang descreve um conjunto de cenas completamente diferentes de tudo o que já li, para o bem e para o mal, e sobre a qual não quero desvendar nada. Devem partir à descoberta, com os sentidos apurados, apesar dos sentimentos negativos que esta vos vai despertar.

 

A parte final é o culmirar de tudo o que tem acontecido com Yeong-hye ao longo do livro, mas não só. São-nos revelados pormenores sobre acontecimentos do passado que fazem com que consigamos encaixar algumas peças no complexo puzzle que esta personagem principal representa, sem nunca conseguirmos compreender o que se passa verdadeiramente na sua alma.

 

Han Kang conseguiu retratar de forma soberba a revolução extremamente complexa que se passa no interior de Yeong-hye, bem como a sua transformação interior e exterior (a metáfora apresentada na parte final é perfeita - apesar de estar na sinopse do livro, prefiro não revelar), deixando-nos compreender umas coisas, enquanto outras irão permanecer um mistério. Uma escritora contemporânea para seguir atentamente.

 

É o teu corpo, podes tratá-lo como quiseres. É a única coisa em que és livre de fazeres o que quiseres. E nem sequer nisso te dão liberdade.

 

14
Set17

[DISCOS] | Easter

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Easter (1978) já era o meu álbum preferido de Patti Smith há alguns tempos por conter uma das minhas músicas preferidas de sempre: Because The Night (single deste disco).

 

Depois de ter lido Apenas Miúdos não consegui adiar mais a sua compra, os vinis às vezes acabam por esgotar, por isso, lá chegou esta pequena maravilha à colecção de vinis que comecei a fazer. Deixo-vos uma passagem do livro que faz referência à época de lançamento do single e do disco.

Num final de tarde, estávamos a descer a rua 8 quando ouvimos o "Because The Night" saindo de sucessivos estabelecimentos. Era a minha colaboração com o Bruce Springsteen, o single do álbum Easter. O Robert foi o nosso primeiro ouvinte após termos gravado a canção. Eu tinha um motivo para isso. Era o que ele sempre quisera para mim. No Verão de 1978, a canção subiu ao décimo terceiro lugar nas tabelas do Top 40, cumprindo o sonho do Robert de que um dia eu haveria de ter um disco que fosse um êxito.

O Robert estava a sorrir e a caminhar ao ritmo da canção. Puxou de um cigarro e acendeu-o. Tínhamos passado por muita coisa desde que ele me salvara do escritor de ficção científica e partilhara um batido debaixo de um alpendre nas imediações da Tompkins Square.

O Robert estava declaradamente orgulhoso do meu sucesso. O que ele queria para si, queria para nós ambos. Exalou um perfeito fluxo de fumo, e falou num tom que só usava comigo - o de reprimenda fingida - admiração sem inveja, a nossa liguagem de irmão-irmã.

"Patti, tu ficaste famosa antes de mim."

Agora, abram um novo separador, entrem no YouTube e pesquisem "Because The Night". Ouçam e digam-me o que acharam.

 

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13
Set17

[LIVROS] | Apenas Miúdos

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Apenas Miúdos foi um daqueles casos em que não sabia quase nada sobre o livro, mas que pressenti que ia gostar pela conjugação escritora/título/capa. Já andava a adiar a sua compra há alguns anos e este ano não me escapou. Bendita a hora!

 

Fiz, ao todo, 32 anotações, pelo que se avizinha um post muito difícil de escrever: gostava de partilhar tudo o que anotei convosco, de modo a que possam entender a grandiosidade deste livro, mas vou tentar partilhar apenas o mínimo para que possam surpreender-se durante esta leitura e para não tornar este texto demasiado pesado. Ao longo de Apenas Miúdos somos conduzidos desde a infância de Patti Smith até à sua ida para Nova Iorque onde se desenrola a história deste livro, no entanto, apesar de a parte inicial ser apenas um caminho para mostrar como Patti chega até Nova Iorque e conhece Robert Mapplethorpe, a quem prometeu escrever sobre a história deles, antes deste morrer, em 1989, foi uma das minhas partes preferidas.

Achava consolo nos meus livros. Por estranho que pareça, foi Louise May Alcott que me ofereceu uma visão positiva do meu destino feminino. A Jo, maria-rapaz das quatro irmãs March no "Mulherzinhas", escreve para ajudar a sustentar a família, esforçando-se para garantir o sustento durante a Guerra Civil. (...) Ela deu-me coragem para um novo objectivo, e não tardou que andasse a confeccionar historietas e a provocar longos bocejos ao meu irmão e à minha irmã. A partir de então, acarinhei a ideia de que um dia haveria de escrever um livro.

Ansiava entrar na fraternidade dos artistas: a fome, a maneira como eles se vestiam, os seus processos e orações. Gabava-me de que um dia haveria de ser amante de um artista. Nada me parecia mais romântico ao meu jovem espírito. Imaginava-me como uma Frida para o Diego, tanto musa como obreira. Sonhava conhecer um artista para o amar, apoiar e trabalhar lado a lado.

Uma vez em Nova Iorque, Patti conhece Robert Mapplethorpe, com quem teve uma relação amorosa que mais tarde se consolidou numa amizade muito forte e bonita, graças às experiências e dificuldades que passaram nos tempos em que eram jovens, enquanto tentavam descobrir quem eram e que caminho seguir no mundo artístico. Ao lermos pelo que ambos passaram, permanecendo sempre unidos, mesmo nos momentos mais duros, compreendemos que este tipo de ligação irá durar para sempre, só poderia ser inquebrável. Este é um dos principais motivos pelo qual gostei tanto deste livro: deu-me fé.

Tínhamos o nosso trabalho e tínhamo-nos um ao outro. Não tínhamos dinheiro para ir ver concertos ou filmes, nem comprarmos discos novos, mas tocávamos repetidamente os que havia lá em casa.

Vivíamos do pão do dia anterior e do guisado de carne enlatado da Dinty Moore. Não tínhamos dinheiro para ir a sítio algum, não tínhamos televisão, nem telefone, nem rádio. Tínhamos o nosso gira-discos, e puxávamos o braço dele para trás de modo a que um determinado disco continuasse a tocar sem parar enquanto dormíamos.

 

Mais tarde, percorremos o caminho que levou ambos até ao icónico Hotel Chelsea onde tanta gente escrevera, conversara e convulsionara naqueles quartos de casa de bonecas vitoriana. (...) Tantas almas em trânsito se haviam ali desposado, deixado marcas e sucumbido. Eu cheirava o espírito deles enquanto saltitava silenciosamente entre um andar e outro, ávida por debater com uma já desaparecida procissão de lagartas fumadoras. Ler sobre aqueles tempos é uma experiência soberba, na medida em que Patti e Robert privavam com nomes incontornáveis do mundo artístico do final dos anos 60, como Janis Joplin e Jimi Hendrix, e frequentavam os mesmos espaços onde antes ou naquela época frequentaram Dalí, Bob Dylan, Warhol, etc. Enquanto Patti explorava o desenho, a poesia e, mais tarde, a música, Robert inclinava-se claramente para as artes plásticas, destacando-se na fotografia.

O Bob Dylan tinha entrado no clube. Essa noção teve um estranho efeito sobre mim. Em vez de me tornar mais humilde, senti um poder, porventura o dele; mas senti também o meu próprio valor e o valor da minha banda. A mim pareceu-me uma noite de iniciação, em que tive de tornar-me plenamente eu mesma na presença daquele que sempre me havia servido de modelo.

Este livro termina descrevendo algo que já sabemos desde o início: a morte de Robert Mapplethorpe, diagnosticado com SIDA em 1986. Nesta época, Patti já está casada com Fred Smith e tem dois filhos. Ler o que Patti escreve sobre os últimos tempos de Robert, repletos de sofrimento, a relação umbilical que mantinham e a consciência que tinham de que o fim de Robert estava demasiado perto que era quase possível tocá-lo é dilacerante. Chorei bastante nas páginas finais e terminei o livro entre lágrimas e soluços, imaginando a dor de Patti Smith, primeiro naquela época e, depois, ao colocar tudo por escrito neste livro, já em 2010, antes dos 21 anos da morte de Robert.

 

Ao ler Apenas Miúdos, tornamo-nos tão próximos destas duas pessoas extraordinárias, que é impossível ficar indiferente a esta história tão real. É esta a beleza dos livros de não-ficção.

 

11
Set17

[LIVROS] | Um Quarto Só para Si

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Um Quarto Só para Si, ensaio publicado em 1929, baseia-se em duas conferências com o tema As Mulheres e a Ficção dadas por Virginia Woolf a um público feminino. É mundialmente reconhecido como uma obra clássica feminista onde Virginia reflecte, de forma muito clara, porém carregada de ironia, acerca da forma como a educação e a sociedade influenciaram a presença das mulheres na literatura. Esta presença foi quase nula até à segunda metade do século XVIII, época em que surgiram os nomes de Jane Austen, das irmãs Brontë e George Eliot (Mary Ann Evans), responsáveis por obras incontornáveis da literatura como Orgulho e Preconceito, O Monte dos Vendavais (Emily Brontë) e Middlemarch.

 

No início deste ensaio, Virginia Woolf alerta o seu auditório que: o que vou descrever não existe: Oxbridge é uma invenção; Ferhnam também; "eu" é somente um termo conveniente para alguém que não tem uma existência real. As mentiras hão-de fluir dos meus lábios, mas talvez possa haver alguma verdade misturada nelas; cabe-vos procurar e encontrar essa verdade e decidir se vale a pena guardar qualquer fracção dela. Caso contrário ides atirar, evidentemente, tudo para o cesto dos papéis e esquecer. Feita a ressalva, como podemos não nos apaixonar de imediato por Virginia Woolf?

 

O papel de superioridade que os homens assumiram ao longo de séculos em relação ao sexo feminino e a falta de condições financeiras, de um espaço espaço próprio e de educação, reflexo de uma sociedade patriacal, são constantemente reforçados por Virginia como as causas fulcrais para as mulheres terem surgido tão tarde, e a muito custo, na literatura.

Mas aquilo que acho deplorável, continuei, olhando outra vez para as prateleiras, é que nada se saiba sobre as mulheres anteriores ao século XVIII. Não surge qualquer pista no meu espírito para me voltar para este lado ou para aquele. Eis-me a indagar porque razão as mulheres não escreveram poesia na época isabelina; e não sei como foram educadas: se as ensinavam a escrever; se tinham salas de estar para si; quantos filhos tinham antes dos vinte e um anos; o que, resumindo, faziam das oito da manhã às oito da noite.

 

Uma vez ultrapassada a barreira social e educional que impedia que as mulheres tivessem as mínimas condições para escrever, Virginia Woolf chama a atenção para as dificuldades que as primeiras mulheres que se aventuraram nesse caminho sentiram: A indiferença do mundo que Keats, Flaubert e outros homens de génio acharam tão difícil de suportar, era, no caso delas, não a indiferença, mas a hostilidade. O mundo não lhes dizia como dizia a eles: "Escrevam se quiserem; é-me indiferente". O mundo dizia com uma gargalhada grosseira "Escrever? Para que serve o que escrevem?".

 

Ao longo desta leitura somos diversas vezes confrontados com a visão prática que Virginia Woolf tem do mundo. Sempre muito acertiva, defende acerrimamente que a independência financeira da mulher é um factor fundamental para que esta possa ser livre para escrever: A poesia depende da liberdade intelectual. E as mulheres têm sido sempre pobres, não só durante duzentos anos, mas desde o início dos tempos. As mulheres têm tido menos liberdade intelectual do que os filhos dos escravos atenienses. Assim, as mulheres não têm sido bafejadas pela sorte para escrever poesia. É por isso que tenho posto tanta ênfase no dinheiro e num quarto só para elas.

 

Esta opinião já vai longa e tal deve-se ao mérito das palavras de Virginia Woolf. Fiz imensas anotações e senti, desde o início, uma relação muito forte com este livro, com esta escritora e com a mensagem feminista transmitida. Toda a experiência de leitura de mulheres que se preocupam em analisar a causa feminina e em procurar soluções, sempre com a esperança de que havemos de ultrapassar todas as barreiras que nos foram e são colocadas, deixou-me muito sensibilizada ao ponto de não reconhecer a alma geralmente insensível que habita em mim. Deixo-vos mais umas partes (épicas) deste livro maravilhoso, leiam-nos enquanto imaginam Virginia a discursar para uma plateia universitária feminina, há 88 anos atrás.

 

Que talento, que integridade devem ter sido exigidos em face das críticas a que estavam sujeitas, no meio daquela sociedade puramente patriacal, para segurarem com firmeza uma coisa tal como a viam sem se violentarem. Apenas Jane Austen e Emily Brontë o conseguiram. É, talvez, o mais belo motivo de orgulho. Escreveram como as mulheres escrevem, não como os homens.

 

Portanto queria pedir-vos que escrevêsseis todo o tipo de livros, sem hesitar perante qualquer assunto por muito trivial ou vasto que seja. De uma maneira ou de outra, espero que tenhais bastante dinheiro vosso para viajar e saborear o ócio, para contemplar o futuro ou o passado do mundo, para sonhar em cima dos livros, parar às esquinas das ruas e permitir que uma linha do vosso pensamento mergulhe no seu curso.

 

Numa escala de zero a dez classifico-o como: obrigatório.

 

08
Set17

[EDITORIAL] | Mais Mulheres Por Favor

Além disso, dentro de cem anos, pensei ao chegar à minha porta, as mulheres terão deixado de ser um sexo protegido. Logicamente vão participar em todas as actividades e empregos que outrora lhes eram negados. A ama despejará carvão. A lojista conduzirá uma locomotiva. Todas as suposições assentes em factos, observadas quando as mulheres eram o sexo protegido, terão desaparecido (...).

 

Em 1929, Virginia Woolf, em Um Quarto Só para Si, previa que a mulher se emanciparia de forma estrondosa dentro de cem anos. A 12 de anos de atingirmos este prazo, é inquestionável que muita coisa mudou desde então, o debate feminista está mais aceso do que nunca, foram feitas conquistas muito importantes para a defesa dos seus direitos e o trabalho desenvolvido pelas mulheres é, finalmente, do mundo. A visibilidade que as mulheres têm tido nas redes sociais desempenhou um papel muito poderoso nesta causa e foi através de um destaque cada vez mais frequente que o feminismo me tocou de forma incontornável. Literatura, música, cinema, séries, fotografia, desenho, havia (e há) muito por onde escolher. De conta em conta, de página em página, fui descobrindo um número sem fim de recomendações literárias e cinematográficas, fotografias e ilustrações maravilhosas, todas com um denominador comum: mulheres.

 

Como seria de esperar numa apaixonada por livros, o meu primeiro contacto verdadeiramente consciente com a divulgação das mulheres na cultura foi, naturalmente, através desta arte. Chegaram-me à vista projectos deliciosos que me desassossegaram a alma, o espírito, os neurónios, ou o que lhe queiram chamar. Ganhei, automaticamente, muito afecto pelo Leia Mulheres, iniciado no Brasil por três amigas, Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, com o intuito de dar continuidade ao projecto #readwomen2014 da escritora Joanna Walsh, fazendo não só um convite à leitura de obras escritas por mulheres, mas transportando também esta iniciativa para livrarias e espaços culturais. O mesmo aconteceu quando conheci, pouco tempo depois, o Our Shared Shelf, um clube de leitura feminista criado por Emma Watson, que consiste em ler um livro escrito por uma mulher de dois em dois meses (no início, mensalmente), discutindo-o posteriormente.

 

Graças a estes projectos, comecei a dar mais importância à escolha das minhas leituras, tentando gerir um equilíbrio que se adivinhava difícil, já que cerca de 90% da minha estante era constituída por escritores. Não me obriguei a ler apenas mulheres, até porque nenhuma das iniciativas que referi anteriormente apela a tal acto, no entanto, as obras escritas por mulheres ganharam um grande destaque na minha estante e as minhas leituras (e compras) tornaram-se, com muita naturalidade, maioritariamente femininas.

 

Paralelamente ao meu crescente interesse por obras escritas por mulheres, tenho prestado muito mais atenção à participação das mulheres noutras áreas culturais que antes me passavam despercebidas. Vou fazendo muitas listas de filmes e séries que têm uma participação feminina activa, quer na produção, quer no conteúdo, e seguindo cada vez mais mulheres ilustradoras e fotógrafas, actrizes e cantoras. Sempre de sorriso no rosto, feliz da vida.

 

À medida que o meu entusiasmo com esta temática foi crescendo, senti um grande desejo de largar tudo e dedicar-me a um projecto de divulgação das mulheres nas várias áreas da cultura, já que me pareceu haver uma lacuna nesta área em Portugal (caso esteja equivocada, por favor mostrem-me todos os que existirem, prometo que olharei para cada um deles deliciada). E assim nasceu o Mais Mulheres Por Favor. Não sei se terei o tempo necessário para levar este projecto a bom porto (o que quer que seja que isso signifique), se serei teimosa e persistente o suficiente para tal, se precisarei de outras pessoas para me ajudar, se existirá um clube de leitura ou encontros periódicos para discutir obras (não necessariamente apenas livros) de mulheres, mas gostava muito (tanto) de sentir que, de alguma forma, posso contribuir para que alguém que por aqui passe dê mais atenção ao conteúdo produzido pelas mulheres.

 

WOOK - www.wook.pt

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