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Mais Mulheres Por Favor

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06
Fev19

[DOCUMENTÁRIOS] Quatro documentários para ver na Netflix

 
Nem todos os documentários desta lista são realizados por mulheres, contudo, todos têm um denominador comum, são sobre mulheres. De modo a fortalecer este projecto, tenho dado especial atenção aos documentários sobre mulheres que estão disponíveis na Netflix e tenho ficado muito surpreendida com os que vi até agora, não só a nível da sua qualidade, mas sobretudo por tudo o que tenho descoberto. Por este motivo, gostava de os ir partilhando por aqui, porque acredito que, grande parte deles, passem ao lado da maioria das pessoas e merecem realmente a pena ser vistos.
 

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Maya Angelou: And Still I Rise
É impossível ficar indiferente ao carisma desta poetisa e ativista dos direitos civis, à sua energia contagiante e à sua história de vida. Era uma das figuras do século XX que queria muito conhecer e foi maravilhoso fazê-lo através das suas próprias palavras e dos testemunhos de quem privou com ela. Já queria ler Sei Porque Canta o Passáro na Gaiola há bastante tempo, mas, depois deste documentário, subiu imediatamente na lista de prioridades literárias, devo lê-lo já em Março.
 

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Joan Didion: The Center Will Not Hold
O documentário que mais me emocionou de tão próxima que me fez sentir de Joan Didion. Dois aspectos conferem-lhe um tom ainda mais intimista do que é habitual neste género de documentários biográficos, primeiro, Joan Didion ainda está viva e fala abertamente sobre a sua vida e obra, segundo, é realizado pelo sobrinho. Talvez por isto me tenha sentido mais ligada emocionalmente à escritora e jornalista, que teve uma vida fascinante e que se tornou um ícone da literatura. A morte do marido e da filha com poucos meses de diferença quebraram-me por completo o coração e acabei por ir a correr comprar O Ano do Pensamento Mágico, livro autobiográfico centrado no luto pelo marido.
 

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Mercury 13
Quero crer que não era a única pessoa do planeta que desconhecia por completo que um grupo de mulheres ligadas à aviação foi sujeito a uma extensiva e rigorosa bateria de testes no âmbito do programa espacial. O responsável pela definição dos testes aos futuros homens astronautas, teve curiosidade de replicá-los em mulheres com o intuito de saber como estas se sairiam. Fê-lo em segredo absoluto e qual não foi o seu espanto quando se apercebeu que estas apresentavam melhores resultados que os homens. Como é possível calcular, quando foi descoberto, o projecto foi imediatamente cancelado e estas mulheres viram-se impedidas de participar na corrida ao programa espacial americano, quando tinham todo o direito e qualificação para o fazer. Este documentário tem uma fotografia magnifica e é deveras emocionante devido à presença de várias das mulheres que fizeram parte do Mercury 13. Mais uma daquelas histórias inspiradoras que nos motiva a nunca desistirmos dos nossos sonhos. Apesar de tudo, cerca de duas décadas depois, foi colocada no espaço a primeira mulher americana, quebrando-se finalmente as barreiras de género na NASA.
 

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What Happened, Miss Simone?
Documentário sobre a lendária cantora e ativista Nina Simone que foi nomeado, em 2016, para o Óscar de Melhor Documentário e cujo título foi retirado de uma citação de Maya Angelou. É provavelmente a figura mais controversa destes quatro documentários, por toda a sua história de vida e pela posição que assumiu na defesa dos direitos civis. Ainda assim, tantos foram os momentos em que me enterneceu e inspirou. Creio que este documentário tem um papel importante na melhor compreensão da pessoa que estava por detrás desta figura icónica, dos motivos pelos quais certas coisas aconteceram. Apaixonei-me pela música Ain't Got No - I Got Life, que reflete tão bem a época em que foi lançada (1968), e, em simultâneo, transmite uma mensagem de esperança maravilhosa, ponham-na a tocar e leiam a sua letra.
 
I ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweater
Ain't got no perfume, ain't got no bed
Ain't got no man
 
Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schoolin'
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no god
 
Hey, what have I got?
Why am I alive, anyway?
Yeah, what have I got
Nobody can take away?
 
Got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth, I got my smile
I got my tongue, got my chin
Got my neck, got my boobies
Got my heart, got my soul
Got my back, I got my sex
 
I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver, got my blood
 
I've got life, I've got my freedom
I've got life
I've got the life
And I'm going to keep it
I've got the life
 
04
Fev19

[LIVROS] | Vox

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Vox, de Christina Dalcher, é uma distopia feminista que nos coloca nos Estados Unidos da América, onde as mulheres têm direito a verbalizar apenas 100 palavras por dia, contabilizadas por uma pulseira. Quando chegam às cem palavras são electrocutadas pela própria pulseira e à medida que ultrapassam o limite diário de palavras verifica-se o mesmo com a intensidade do choque.

 

Gosto particularmente de distopias porque nos fazem reflectir sobre quão longe poderemos estar de que se concretizem na vida real. Tendo em conta o nosso passado de silenciamento e a crescente onda de revolta, é natural que se receie uma nova revolução social, voltando o homem a estar no comando e a mulher completamente silenciada. Não é difícil imaginar como seria passarmos da liberdade de expressão que dispomos actualmente no nosso dia-a-dia, no trabalho, em casa, na rua, para um quase total silêncio. Abreviar frases de modo a usar o menor número de palavras possível, responder a questões abanando apenas a cabeça, voltar ao papel de dona de casa, uma vez que todas as mulheres perderam o direito de trabalhar, juntamente com a sua voz. Se pararmos um pouco para reflectir e nos recordarmos das pessoas com visões sociais e políticas muito pouco igualitárias que se encontram à frente de diversos países actualmente, tudo isto ganha dimensões palpáveis e concretizáveis, sobretudo quando as imaginamos associadas a um poderoso fundamentalismo religioso.

 

Vox apresenta-nos, portanto, um cenário altamente provável e tremendamente assustador. Gostei muito da forma como, em diversos momentos, me fez equacionar de que forma a minha vida mudaria ou como reagiria (ou não) face a divergências familiares quotidianas. Outro aspecto importante de reflexão prende-se com a educação de um filho e de uma filha num período como este. Seria árduo em ambas as situações porque apenas teríamos cem palavras diárias para o fazer, mas, no segundo caso haveria a preocupação acrescida de fazê-la compreender, desde muito pequena, que não pode pronunciar mais de 100 palavras por dia. Adicionalmente, quais as possíveis repercussões que uma restrição deste genéro poderia ter na nova geração de mulheres, em termos linguísticos?

 

A figura central de Vox é Jean, neurolinguista conceituada, mãe de três rapazes e de uma rapariga, que se vê afastada do seu trabalho e de si própria, a braços com a mudança de comportamento dos filhos (resultante das alterações educativas que este regime impôs) e com o futuro da filha. É através dela que temos conhecimento do que se passa naquele país e de como o futuro se prevê ainda mais assustador e limitativo.

 

O ritmo deste livro, que devorei rapidamente, e as questões que levanta agradaram-me bastante, contudo, fiquei um pouco desiludida com a intriga amorosa e o desfecho. Imaginava um final em aberto, prolongando-se o peso que este género de distopia coloca tipicamente sobre nós. Ainda assim, creio que irá fazer as delícias de quem é fã de distopias e thrillers, sobretudo entre os mais jovens. Estou ansiosa para falar sobre ele no Net Book Club.

 

Livro cedido pela editora, à venda a partir de hoje.

 

30
Jan19

[LIVROS] | Eliete

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Dulce Maria Cardoso é uma das escritoras portuguesas mais aclamadas actualmente, da qual já havia lido O Retorno (2013), tudo são histórias de amor (2014) e O Chão dos Pardais (2009), por esta ordem. Recomendo sempre de olhos fechados O Retorno, um dos meus livros preferidos da vida; tudo são histórias de amor partiu-me o coração em pedaços; O Chão dos Pardais não mexeu tanto comigo, mas o amor por Dulce Maria Cardoso já estava mais do que consolidado na época em que o li. Na Feira de Natal da Tinta-da-China, tive a sorte de encontrá-la e pedir-lhe uma dedicatória no seu mais recente livro, Eliete.
 
Não li a sinopse nem as críticas deste livro antes de o ler, apenas sabia que tinha sido incluído em várias listas de melhores livros do ano, em diversos jornais/revistas. Tinha saudades de ler esta autora e acabei por não adiar muito esta leitura, algo em Eliete me atraía magneticamente. Não estava à espera que o registo deste livro fosse tão moderno, Eliete tem pouco mais de quarenta anos, é casada, tem duas filhas e trabalha numa imobiliária. A acção deste livro tem como pano de fundo Cascais e passa-se ao longo do ano de 2016, havendo mesmo uma parte dedicada à final do Euro em que, graças ao Éderzito, fomos campeões europeus de futebol. Gostei da actualidade deste livro e do tom cómico-trágico de Eliete, outro facto que confere maior dimensão a este livro é o declínio mental da sua avó e tudo a que isso dará origem.
 
Apesar dos pontos que referi acima, houve duas coisas que não me fizeram dar cinco estrelas a este livro. Em primeiro lugar, o momento de viragem na atitude e postura de Eliete, sensivelmente a meio da narrativa, que julgo arrastar-se demasiado e que faz esmorecer um pouco o entusiasmo da parte inicial. O segundo aspecto prende-se com o "desaparecimento" da mãe de Eliete nos dois terços finais do livro, fiquei um pouco desiludida que, após um início tão tenso entre ambas, não houvesse uma continuação da relação entre ambas nos meses que se seguiram.
 
Feito o balanço, há que acrescentar que adorei voltar a ler Dulce Maria Cardoso e que estou realmente ansiosa pela segunda parte de Eliete que, segundo consta, será publicada ainda este ano.
 
Não queria a balbúrdia da festa lá fora, não queria o sossego da solidão cá dentro, mas como é que podia dizer, sem me sentir ridícula, ao Marco, ao mundo, ao Jorge, a mim, que queria ser amada, como é que podia dizer, dizer-nos, bem alto, Sim, sim, quero ser amada, sim, quero uma tempestade, mas uma tempestade a proteger-me do mundo, quero ser o olho do furacão, a calma em torno da qual tudo se agita, quero ser causa e consequência do que se passa à minha volta, quero não estar parada, caminhar com a previsibilidade incerta dos temporais, quero a brutalidade do que é efémero em vez da eterna compostura sólida de planetas que gravitam, quero não estar a banhos no vaivém monótono de dias e marés. Sim, era isso. Queria, acima de tudo, não ter de pensar aqueles disparates. Queria ficar sóbria e não ser triste.
 
Livro escolhido para o projecto Uma Dúzia de Livros, da Rita da Nova.
25
Jan19

[LIVROS] | Fica Comigo

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Fica Comigo, de Ayòbámi Adébáyò, foi uma das novidades da rentrée literária de 2018 que mais me chamou a atenção na época. Tenho por hábito acompanhar de perto as novidades da Elsinore, porque muitos dos seus livros se tornaram preferidos da vida (assim de repente, recordo-me de Yoro e A Guerra não Tem Rosto de Mulher), e com Fica Comigo não foi diferente, a capa e a sinopse deram-me o impulso final para o adquirir.

 

Este livro passa-se na Nigéria, desde os anos 1980 até, praticamente, à actualidade, e aborda a temática da infertilidade, que, embora seja transversal à humanidade, toma contornos muito particulares nesta cultura, bastante distintos daqueles que conhecemos no "mundo" ocidental. Há também um contexto histórico muito forte que vamos acompanhando à medida que os anos passam nesta narrativa. Tinha muita curiosidade em relação à forma como Ayòbàmi Adébáyò iria explorar esta temática, bem como relativamente aos contornos da história propriamente dita, e fiquei muito surpreendida com a qualidade da escrita da autora, bem como do enredo em geral.

 

O início de Fica Comigo é muito intenso, fiquei imediatamente cativada e sofri juntamente com a protagonista, Yejide. Todos fazemos ideia, de alguma forma, da dor que um casal experiencia num contexto de infertilidade, um loop de esperança seguida de desilusão, a tristeza, o desespero e a irracionalidade, tudo misturado num cocktail que, facilmente, pode ser explosivo. Na cultura nigeriana, toda esta tempestade de emoções é ainda mais notória, já que, a título de exemplo, é habitual um homem ter várias mulheres e, naturalmente, filhos dessas mesmas mulheres, além disso, é muito importante que um homem tenha vários filhos, se forem homens, melhor ainda. Devido à ausência de uma gravidez, Yejide vê-se a braços com o aparecimento de uma segunda mulher para Akin, o seu marido.

 

Creio que, a certo momento da leitura de Fica Comigo, vamos pensar que esta história tem reviravoltas a mais, mas, tendo em conta a cultura onde se insere e os sentimentos que unem os personagens, confesso que isso não me afectou muito, senti-me transportada para aquela realidade e tudo me pareceu bastante plausível, contudo, esta componente mais de "novela" faz, na maioria das vezes, cair a tão importante quinta estrela, tal como aconteceu comigo. Ainda assim, adorei esta leitura e o desfecho da história, pretendo ler mais obras de Ayòbàmi Adébáyò.

Muros coloridos iam-me cercando por todos os lados. Tentava empurrá-los, mas os muros eram de cimento e aço. Eu era apenas carne e míseros ossos.

 

23
Jan19

[LIVROS] | Canção doce

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Canção doce, de Leïla Slimani, foi um dos livros que mais me chamou a atenção no ano passado mas que demorou algum tempo até vir morar cá para casa. Ouvi opiniões muito positivas e a temática atraiu-me bastante, por ser distinta daquilo que leio habitualmente.
 
Devorei-o em muito pouco tempo, a estrutura e a escrita tornam a leitura rápida e entusiasmante, contudo, devo confessar que esperava um pouco mais. No início do livro já sabemos o que aconteceu, uma ama, Louise, assassina as duas crianças de quem tomava conta, só não sabemos exatamente o que desencadeou tal coisa. Ao longo do resto do livro, vamos acompanhando como se desenvolve a relação desta ama com as crianças de quem tomava conta, bem como com os pais destas, à medida que descobrimos também mais sobre o passado desta mulher.
 
Canção doce vai desvendando de forma subtil os motivos que levaram ao infanticídio, quase podemos ver o mal a "nascer" em Louise (ou já estaria com ela?), contudo, custou-me crer na "cegueira" dos pais face à aparente perfeição de Louise. Paralelamente, senti falta de algumas explicações, na minha opinião, teria sido importante ler sobre o que aconteceu e não apenas o antes e o imediatamente depois, embora perceba a intencionalidade de deixar certas questões no ar, até porque o impacto no leitor é maior quando, no fundo, se trata do enigma que é o comportamento humano.
 
Acredito que o facto de ainda não ser mãe também tenha algum impacto na minha visão deste livro, mas, no geral, gostei da forma como Leïla Slimani conduz esta história e das reflexões que este livro levanta, em particular, da fase de transição de Myriam (a mãe), que dá origem à contratação de Louise.
 
Durante meses, fingiu suportar a situação. Nem a Paul teve coragem de confessar até que ponto tinha vergonha. Até que ponto se sentia morrer por não ter nada para contar, a não ser as palhaçadas dos filhos e as conversas entre desconhecidos que ela espiava no supermercado. Começou a recusar todos os convites para jantar, a não atender os telefonemas dos amigos. Desconfiava sobretudo das mulheres, que podiam ser tão cruéis. Tinha vontade de estrangular aquelas que fingiam admirá-la ou, pior, ter inveja de si. Já não aguentava ouvi-las queixar-se do trabalho, de quase não verem os filhos. Acima de tudo, tinha medo dos desconhecidos. Daqueles que lhe perguntavam inocentemente o que fazia na vida e que viravam a cabeça ao ouvir a resposta «Doméstica».
 
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