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Mais Mulheres Por Favor

21
Jun18

[LIVROS] | Varanda de Inverno

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Sou frequentemente tentada com novas publicações de livros poesia, especialmente pelos da Assírio & Alvim. Os títulos e as capas prendem-se à minha mente e todo o santo dia penso neles, namoro-os nas livrarias ou nos sites onde os posso comprar, cada foto ou artigo a publicitá-lo faz-me suspirar por ainda não estarem na minha posse. Ando nisto, dias, semanas, às vezes (muito poucas), meses, mas lá acabo por comprá-los e, inevitavelmente, lê-los em menos de um dia. Bem tento poupá-los, mas não consigo. É como se só pudesse comer um quadrado de chocolate ou uma pipoca. Não dá. O livro que escolhi para o projecto #lerpoesia de Maio foi um desses casos, amor à primeira vista e para lá do último poema.

 

Marta Chaves é psicóloga clínica e psicoterapeuta e já publicou diversos poemas e livros de poesia desde 2008, sendo Varanda de Inverno o primeiro publicado na Assírio & Alvim. Desconhecia por completo a sua poesia, mas identifiquei-me de tal forma com este título e com alguns poemas que vi publicados que não lhe consegui resistir por muito tempo. O meu sexto sentido poético não me falhou, devorei-o em poucas horas. Tenho um amor especial pelos poemas que gostaria de ter escrito, com que me identifico, que me fazem sorrir ou que me marejam os olhos, Varanda de Inverno tem isso tudo, pelo que será um livro para ir lendo ao longo da vida.

 

Muitos poemas marcados, livro com lugar especial no coração, espera paciente pela aquisição das obras antigas e pelas que hão-de vir: é disto que é feita a poesia.

 

Proporção Áurea

 

Chego ao campo e encontro

a transparência que me arrebata.

A paisagem sonora nada interrompe,

propaga-se pelo ar e regressa em eco.

 

O dia finda na debandada dos pássaros.

Durante a noite o fogo alimenta-me.

O vinho e a madeira dilatam,

indiferentes à estação.

 

Deitada na cama não me falta o ar.

Do céu vê-se a casa,

na casa o quarto,

dentro dele, eu.

 

14
Jun18

[LIVROS] | Frankenstein

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Frankenstein, de Mary Shelley, era um dos clássicos escritos por mulheres que, vergonhosamente, ainda não tinha lido. Felizmente, foi o livro escolhido para a leitura de Março/Abril do Clube dos Clássicos Vivos, cujo encontro para a respectiva discussão aconteceu no primeiro fim-de-semana da Feira do Livro e que resultou, como sempre, numa troca de opiniões maravilhosa. Como se já não houvesse motivos suficientemente bons, este ano, celebram-se os duzentos anos da publicação da primeira edição desta obra, pelo que a sua leitura não poderia ter acontecido em melhor momento.

 

Não sendo um livro favorito da vida, gostei mais do que estava à espera (confesso que tinha o pressentimento de que o acharia enfadonho). Como a maioria das pessoas, apesar de já ter ouvido falar dezenas ou centenas de vezes em Frankenstein, estava bastante longe de conhecer a história original, pelo que foi uma excelente surpresa conhecê-la, assim como poder constatar que a escrita e a história de Mary Shelley não são, de todo, enfadonhas, muito pelo contrário, gostei particularmente da forma como Shelley nos conduz pelo romance.

O dia, um dos primeiros da primavera, até a mim conseguiu animar mercê da maravilha da sua luz e do suave perfume do seu ar. Senti renascer em mim sensações de prazer e brandura que julgava mortas havia muito. Meio surpreendido pela novidade de tais sensações, deixei-me embalar por elas e, esquecendo a minha solidão e a minha deformidade, ousei ser feliz. Lágrimas suaves banharam-me de novo as faces e até ergui os olhos húmidos para o bendito Sol, a agradecer-lhe a alegria que me dava.

Mary Shelley, escreveu um romance que abrange os géneros gótico, terror/horror e ficção científica. Se, hoje em dia, dificilmente ficaremos horrorizados com esta história, na época, ou seja, há duzentos anos, este romance foi realmente inovador, chegando mesmo a ser considerado como a primeira obra de ficção científica da história. Quando começou a escrever Frankenstein, Mary Shelley tinha apenas 19 anos.

 

Em relação à estrutura deste romance, agradaram-me mais as partes onde este é narrado através de cartas escritas por Robert Walton, capitão de uma expedição náutica no Pólo Norte, dirigidas à sua irmã Margaret, relatando o seu encontro com Victor Frankenstein (criador da criatura). Quando Victor lhe conta a sua história, terminam as cartas e Victor toma o lugar de narrador. No final, quando Victor termina a sua narração, regressamos às cartas novamente, encerrando-se a história com um final que me agradou bastante. Perto do final da narrativa de Victor há um momento em que a postura deste se torna demasiado repetitiva e com um tom de autocomiseração excessivo, algo que me fez desligar um pouco da história, mas pouco depois a narrativa volta a ganhar mais acção e o entusiasmo renasce.

 

Se ainda não leram este clássico precursor na literatura em tantos aspectos, leiam-no.

 

11
Jun18

[LIVROS] | O Ministério da Felicidade Suprema

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Interrompendo um iato de 20 anos na escrita ficcional, a escritora indiana Arundhati Roy publicou em 2017 o tão aguardado segundo romance, depois de ter vencido o Booker Prize em 1997 (actual Man Booker Prize), com O Deus das Pequenas Coisas. Quando O Ministério da Felicidade Suprema foi editado em Portugal senti-me imediatamente impelida a adquiri-lo, creio que pela capa e pelo título, apesar de nunca ter lido O Deus das Pequenas Coisas, portanto, é sem termo de comparação entre estes dois livros que escrevo esta opinião.
 
Olhando em retrospectiva, reconheço que não escolhi o momento adequado para o ler porque não estava ciente da temática abordada e da dedicação que lhe estava implícita. Ao longo de cerca de um mês e meio, pouco foi o tempo por dia que consegui reservar à sua leitura e, nesses momentos, não consegui lê-lo com a fluidez habitual, o que tornou a leitura deste livro mais lenta do que seria de esperar. Comecei bem, muito entusiasmada e ligada à história e à personagem que me pareceu que seria central, Anjum, uma mulher muçulmana transgénero, mas, à medida que a história foi ganhando dimensão, focando-se noutras personagens durante largas dezenas de páginas (deixando as anteriores um pouco de parte) perdi algum entusiasmo. Apesar de no fim de O Ministério da Felicidade Suprema tudo fazer sentido e de todas as relações entre as personagens se encaixarem, acabei por não me ligar tanto às personagens que foram aparecendo, porque estava constantemente na esperança de regressar à minha preferida. Este foi um erro crasso meu, porque o livro era muito mais do que o retrato de Anjum, mas sim o retrato de uma Índia tão plural como desconhecida para a maioria de nós. Desta forma, este livro será um grande candidato a uma releitura mais madura e consciente.
 
Para além da dimensão temporal e geográfica deste livro, o contexto histórico, político e social é riquíssimo, em contraponto com o meu parco conhecimento sobre todos os conflitos que aconteceram na Índia e em Caxemira e que, actualmente, ainda não estão completamente resolvidos. A pluraridade de culturas, religiões, línguas, tradições e crenças, em conjunto com a pobreza e a solidão, fazem deste livro uma ode aos excluídos deste país, mas também à esperança no futuro, porque, adicionalmente à pobreza e à violência que são transversais a este romance, há amor, entre-ajuda e tolerância a despontar por toda a parte, num choro, numa canção, numa prece, nos gestos das personagens que se cruzam diante dos nossos olhos e que nos dão vontade de os acolhermos, de saber mais, de agir.
Era um velho hábito, dos tempos de universidade. Um deles abria o livro numa página ao acaso. O outro lia o poema. Muitas vezes acabava por ser curiosamente significativo para eles e para o momento particular que estavam a viver. Roleta de poesia.
Mais perto do final do livro, Tilo, uma arquitecta que se envolve na luta pela libertação de Caxemira, acabou por conquistar um lugar no meu coração, a par com Anjum, permitindo-me, então, ver com clareza a dimensão de O Ministério da Felicidade Suprema que referi anteriormente e, num suspiro, cansado mas profundo e transformador, cheguei ao final deste livro, apercendo-me que ele é muito mais poderoso do que intuí inicialmente e que Arundhati Roy realizou um excelente trabalho. Não recomendo este livro a todos, mas gostava que todos tomassem contacto com a Índia que Roy nos transmite neste livro, que não é de todo a Índia da espiritualidade, da paz e dos monges.
Cada um dos ouvintes reconheceu, à sua maneira, parte de si e da sua própria história, da sua Guerra Indo-Paquistanesa, na história desta mulher desconhecida e distante que já não estava viva. Isso fê-los cerrar fileiras em torno da Menina Jebben a Segunda como uma formação de árvores ou elefantes adultos - uma fortaleza impenetrável na qual ela, ao contrário da mãe biológica, cresceria protegida e amada.
18
Mai18

[OPINIÃO] | Da incredulidade

Gostava de partilhar aqui a publicação do The New York Times (fica também a do Público) sobre o que se passou no The Sydney Writers’ Festival e as notas abaixo, depois de ter lido um post que me deixou incrédula.

 

Zinzi Clemmons não é apenas uma senhora, é escritora e professora na Occidental College, em Los Angeles.


A forma como Zinzi Clemmons se sentiu quando Junot Díaz a assediou não é comparável com aquilo que Díaz sentiu quando foi confrontado em público por esta, nem devia ser uma dúvida que Zinzi Clemmons se tenha sentido mal ao ser assediada.

 

"umas tantas raparigas", são Carmen Maria Machado (autora de contos, ensaísta e crítica frequentemente publicada na The New YorkerGrantaLightspeed Magazine, entre outras publicações) e Monica Byrne (dramaturga e autora de ficção-científica), entre outras vozes que surgiram manifestando que muita gente sabia ou suspeitava destes comportamentos.

 

Díaz disse em comunicado através da sua agente literária (Nicole Aragi): "Assumo a responsabilidade pelo meu passado. É por isso que decidi contar a verdade sobre a minha violação e as suas consequências danosas. Esta conversa é importante e tem de continuar. Estou a ouvir e a aprender com as histórias das mulheres neste movimento cultural essencial e há muito devido. Temos de continuar a ensinar todos os homens sobre o que é o consentimento e os limites”.

 

Não, Zinzi Clemmons não vai, nem tem, de pedir desculpa.

 

26
Abr18

[LIVROS] | Olha-Me como Quem Chove

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Em virtude de 99% dos meus livros estarem encaixotados e de me ter esquecido de deixar de parte um livro de poesia para este mês, vi-me na necessidade de adquirir um novo ou ir à biblioteca. Devido ao pequeno caos, nada poético, em que anda a minha vida, lá acabou por vencer a primeira opção: comprei este livro numa visita de cinco minutos à secção de poesia de uma Fnac. Autora, título e capa convenceram-me, não li um único poema, foi pegar e levar, fazendo figas para que fosse bom.

 

Confesso desde já a minha ignorância, mas desconhecia por completo que Alice Vieira escrevia poesia. Este livro foi editado em Março deste ano e existem mais três volumes de poesia de Alice Vieira: Dois Corpos Tombando na Água (2007), O Que Dói às Aves (2009) e Os Armários da Noite (2014).

 

Olha-Me como Quem Chove foi uma óptima surpresa e uma aposta ganha. Para além do prefácio, é constituído por três partes, Olha-Me como Quem Chove, Dias com Gente Assim e Das Palavras. As duas primeiras partes são muito centradas no envelhecimento, na ausência, na morte e na solidão: na fugacidade da vida. Retratos de como tudo vai mudando e de como nos vamos enganando e abstraindo do caminho, com uma meta muito certa, que todos percorremos. Apesar da melancolia e tristeza implícitas, nota-se, por vezes, em certos pormenores uma paz interior tranquilizante. Todas estas temáticas são muito especiais para mim, alma que se preocupa sobremaneira com o envelhecimento, com a rapidez com que tudo se passa e que se põe a imaginar várias vezes o vazio perpétuo em que consistirá a perda do amor da vida, pelo que em certos poemas fiquei com os olhos cravejados de lágrimas e tive de fazer pausas.

o que levam de nós as coisas velhas que

deitamos fora        porque as casas são

pequenas        e os objectos agora

envelhecem mais depressa que nós

 

nas casas velhas

nós éramos outros        mas

os lençóis de linho sobreviviam

a todos os mortos        e passavam

de corpo para corpo        e

eram sempre os mesmos

e envelheciam em arcas de cânfora

que os avós tinham trazido de macau

e nunca tínhamos tido tempo de

esvaziar completamente

 

mas agora tudo é feito

para morrer depressa        e

sem deixar mágoas nem vestígios

 

que fazem dentro das nossas vidas

gravadores de fita        máquinas de escrever        faxes

cassetes onde aprisionámos momentos e rostos

que julgávamos eternos

dvd's que pensávamos rever

até ao fim dos nossos dias

 

(o senhor da sucata estava feliz

agradeceu muitas vezes

enquanto amontoava tudo        deixando

a minha casa subitamente maior

 

- ou muito mais pequena

 

conforme o ponto de vista)

 

Fiquei com pena de ser um livro tão curto, gostava de ler mais, contudo, a última parte, com apenas dois poemas, encerra este livro de forma soberba, uma antítese à perda e à solidão: o desejo e o amor eterno. Fica o primeiro desses dois, que consta também na contracapa, um dos meus preferidos do livro a par com o que transcrevi acima, ficando outros por relevar.

 

Estendo na cama o corpo que há-de ser

o porto a que esta noite vais chegar.

E entre névoas e ventos hei-de ver

o barco dos teus dedos ancorar

na margem mais secreta do desejo.

E há-de haver um mapa ali por perto

que te leve à enseada do meu beijo

e à fogueira de tudo o que está certo.

E na respiração da tua boca

bebo o grito da terra sempre pouca

para a noite em que ficarmos sós.

Mas o corpo descansa apaziguado:

sei que o sol já repousa do meu lado

e que o teu rio já chegou à foz.