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Mais Mulheres Por Favor

10
Out18

[LIVROS] | O Poder

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Há quase um ano publicava a opinião de A História de Uma Serva, de Margaret Atwood, uma distopia que proporciona uma reflexão muito oportuna sobre os direitos das mulheres num futuro que parece ainda muito distante: uma crise na continuidade da espécie humana, devido à poluição e escassez de recursos, que faz das mulheres meros instrumentos de reprodução, mas que, ainda assim, nos deixa a pensar, e se? Este ano, não consegui evitar adquirir O Poder, de Naomi Alderman (que foi a leitura de Setembro para o Net Book Club, da Cláudia), também uma distopia fortemente relacionada com as mulheres, mas onde estas adquirem uma posição oposta, em vez de subjugadas, têm um poder que lhes permite fazer frente a quem as ameace, ou não.

 

Em termos distópicos, O Poder assenta numa ideia excelente, mas que, analisando em perspectiva, tem algumas falhas e podia ter sido muito melhor explorado. A temática e o universo deste livro fizeram dele uma leitura entusiasmante de férias, li-o freneticamente num par de dias, e que dificilmente esquecerei (desconheço se está para breve uma série, mas espero sinceramente que sim). Resumidamente, há um momento, em que algumas mulheres jovens se apercebem que conseguem emitir descargas eléctricas das palmas das mãos, devido a uma meada que possuem na zona da clavícula. Assim, sempre que se vêem numa situação em que estão a ser, de alguma forma, abusadas, conseguem defender-se. Apesar de apenas as mulheres jovens terem nascido com esta capacidade inata, estas conseguem transmiti-la às mulheres mais velhas. Naturalmente, este poder passa a ser usado não apenas para legítima defesa, mas como arma intimidatória e com potenciais fins bélicos.

 

A narrativa é contada em intervalos de tempo que percorrem dez anos e onde vamos acompanhando algumas personagens cujos destinos, de alguma forma, se vão interligar. Assistimos, primeiro, ao receio e desconfiança perante este poder, depois, às primeiras medidas que são tomadas e que se mostram ineficazes devido à crescente transmissão do poder, ao treino e à aprendizagem, e, por fim, ao domínio a nível político, social e religioso. Ao longo desta distopia, verificamos como se dá uma inversão nos papéis de dominador e dominado, de uma forma bastante expectável, mas que não deixa de ser interessante de acompanhar.

 

Apesar do papel dominante da mulher, do que esta faz com o poder, e da evolução sociológica que se vai verificando ao longo do livro, creio que esta ideia poderia ser ainda mais impactante se as personagens tivessem outro relevo. Não me senti fortemente ligada a nenhuma delas, salvo uma excepção, e que, curiosamente, era um homem. Senti falta de mulheres com uma construção mais sólida e que houvesse uma evolução mais notória das personagens já que, ao longo dos dez anos em que se passa este livro, as personagens estão praticamente idênticas ao início e, talvez por isto, sintamos pouca empatia com elas, o que acaba por quebrar a ligação com o livro. Ainda assim, recomendo a leitura a jovens e adultos, porque levanta, realmente, questões muito importantes e que são cada vez mais relevantes nos nossos dias.

 

08
Out18

[LIVROS] | Inverno no Próximo Oriente

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Uma das compras que fiz em sequência da leitura de Mulheres Viajantes, de Sónia Serrano, foi Inverno no Próximo Oriente de Annemarie Schwarzenbach. Estava muito curiosa com a escrita de Schwarzenbach devivo à sua vida marcada por uma angústia permanente, dependência da morfina e tentativas de suicídio. Achei que os seus relatos de viagens seriam muito introspectivos e pouco descritivos, carregados da sua visão pessoal do mundo que ia conhecendo e explorando.

 

Annemarie Schwarzenbach nasceu na Suíça em 1908, formou-se em História e foi arqueóloga e jornalista, realizando diversas viagens pela Ásia, África, Europa e Estados Unidos entre 1934 e 1941, falecendo apenas com 34 anos. Este livro em particular resulta de uma viagem entre o outono de 1933 e a primavera de 1934, onde acompanha um grupo de arqueólogos numa expedição de seis meses pela Turquia, Síria, Palestina, Iraque e Pérsia, numa época em que o nazismo ascendia visivelmente.

 

Não tenho bem a certeza se o problema foi meu ou não, mas achei este livro muito aborrecido. Só o consegui ler até ao fim porque tem menos de 200 páginas, mas com um enorme esforço. A leitura não fluía, não me conseguia manter interessada nos locais que eram descritos e muito raramente conseguia encontrar a sua visão pessoal (que julgava, erradamente, ser muito mais presente), pelo que foi uma pequena tortura a cada página buscar incessantemente vestígios do que procurava e era realmente importante para mim enquanto leitora, pequenos vislumbres, como o excerto abaixo, que por vezes surgiram e que me foram ajudando a chegar até ao final do livro.

É o estado do mundo que nos proporciona uma consciência assim dos perigos, dos acasos e das restrições que intervêm no curso de uma vida breve. Sabemos que o mundo está na véspera de alterações inevitáveis e profundas, mas ignoramos como enfrentá-las. Por isso, experimentamos reconhecimento por cada episódio atravessado sem embuscadas e numa paz relativa.

Provavelmente, tinha as expectativas demasiado elevadas, ou não estava com a cabeça no lugar, mas creio que o meu gosto se inclina mais para outro tipo de registo de literatura de viagens. Fiquei de facto com imensa pena de Inverno no Próximo Oriente ter tido um impacto tão negativo em mim, mas já estou pronta para me atirar ao Morte na Pérsia, para o Clube dos Clássicos Vivos (leitura de Setembro/Outubro). 

 

04
Out18

[LIVROS] | O Quarto de Marte

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Quando este livro foi publicado, este artigo de Isabel Lucas deixou-me deveras curiosa. Ainda não tinha lido nada desta autora e este parecia-me, dos livros já editados em Portugal, o que mais me podia agradar. Pouco tempo depois, soube-se que este constava da Longlist do Booker Prize 2018 e aí não consegui mesmo resistir. No ano passado, aconteceu-me o mesmo com Outono, de Ali Smith. Depois de ter terminado a sua leitura, mais uma boa notícia, O Quarto de Marte faz parte da Shortlist. Assumi-me imediatamente como team Kushner, apesar de não conhecer os restantes livros (de salientar que nenhum deles foi ainda publicado por cá). O vencedor será anunciado no dia 16 de Outubro.

 

Em relação ao livro, posso adiantar que, apesar da minha curiosidade, não estava certa de que seria uma aposta ganha. Iniciei a leitura um pouco de pé atrás, mas o livro foi-me envolvendo e desarmando, conquistando-me com a escrita, o enredo, os saltos temporais e de narradores. A dado momento, o entusiasmo esmoreceu um pouco porque prolonguei demasiado a sua leitura, por falta de tempo, mas quando o retomei a tempo inteiro gostei ainda mais dele. Fiquei realmente com pena de ter de me despedir dos personagens, sobretudo de Romy Hall, uma stripper e prostituta condenada a duas prisões perpétuas consecutivas por ter assassinado um dos seus clientes e personagem central d'O Quarto de Marte, mas também do ambiente sombrio que se sente neste livro e da escrita de Kushner.

 

Rachel Kushner demorou seis anos a escrever este livro, entrou em prisões como voluntária, falou com reclusas, guardas, advogados, mas não gosta de aplicar a palavra pesquisa ao processo. O foco central do livro é, portanto, a penitenciária feminina de Stanvillle, na Califórnia, mas, ao longo deste, vamos também descobrindo o passado das personagens que nos são apresentadas, um passado fora da prisão, e os caminhos que as levaram até ali, quem deixaram cá fora, etc. As partes que mais me marcaram foram, precisamente, as que se passam na prisão, a descrição do ambiente, a interacção entre reclusas, a interacção entre reclusas e guardas, os monólogos interiores, a luta por alguma dignidade, pelos bens essenciais de que são constantemente privadas, as pequenas conquistas, o arrependimento, a relação de Romy com a literatura

Recebi um embrulho. Como uma das sortudas que têm família, ajuda no exterior, eu, Hall, fui chamada para ir buscar o meu embrulho. O Hauser tinha-me arranjado três livros. "Minha Ántonia", "Sei porque Canta o Pássaro na Gaiola" e "Mataram a Cotovia".

Apesar da dureza de algumas partes, este livro é também caracterizado pelo humor, doseados com uma maestria que me agradou sobremaneira, mostrando que Rachel Kushner é, de facto, uma grande escritora. O Quarto de Marte dá-nos a conhecer uma perspectiva de um ambiente do qual, a maioria de nós, pouco sabe, mas que não deixa de ser riquíssimo, impressionante e devastador. Recomendo vivamente.

O silêncio da cela é onde a verdadeira pergunta se demora na mente de uma mulher. A única verdadeira pergunta, impossível de responder. O porquê do que fizemos. O como. Não o como em termos práticos, mas o outro. Como pudeste fazer tal coisa. Como pudeste.

 

01
Out18

[LIVROS] | Pequenos Fogos em Todo o Lado

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Pequenos Fogos em Todo o Lado, de Celeste Ng, foi um sucesso a nível mundial em 2017 e foi editado pela Relógio D'Água em Maio deste ano. Confesso que, caso tivesse sido publicado por outra editora, não o teria lido. Tinha a sensação que seria um daqueles êxitos que me costumam passar completamente ao lado, bem longe do meu gosto pessoal, mas resolvi dar uma oportunidade. O título cativava-me imenso e queria saber porque havia tanta gente maravilhada com este livro.

 

Apesar de ter gostado de alguns pormenores de Pequenos Fogos em Todo o Lado, posso que confessar que, até ao momento, foi a desilusão do ano. Mantive-me interessada em saber como se iria desenrolar a história, mas encontrei muitos lugares comuns tipicamente americanos que me fizeram revirar um pouco os olhos. Primeiro, não sou particularmente fã de dramas adolescentes. Apesar de o livro não se centrar apenas nisso, achei demasiado e não me entusiasmou minimamente. Segundo, achei que a autora quis abordar tantos assuntos polémicos (gravidez na adolescência, aborto, barrigas de aluguer, adopção) que foi tudo explorado muito ao de leve, de forma um pouco forçada e previsível. O que eu adorei neste livro? A história de Mia e de Pearl (mãe e filha). Se o livro fosse apenas a jornada destas duas, com algumas divagações sobre o mundo que as rodeava tinha sido perfeito. Amei de paixão a Mia, a história dela, a sua relação com a arte, a fotografia, e a sua ligação com a filha e com as pessoas que se cruzaram com ela ao longo sua vida. Foi o interesse pela história destas duas que me fez continuar a ler este livro com algum interesse.

 

Creio que este livro dará uma excelente série (Reese Witherspoon irá produzir e participar nesta adaptação, juntamente com Kerry Washington), precisamente pelos motivos que expliquei anteriormente, acredito que os temas abordados ganharão mais espaço e dimensão para serem explorados. A escrita do romance conseguiu realmente incentivar-me a continuar a ler, mas não achei nada de fascinante nem memorável. Sei que a maioria das pessoas irá gostar ou adorar, no entanto, comigo não funcionou assim tão bem, pelo que percebi, sou das poucas que sentiu isso. Já leram este livro? Se sim, o que acharam?

 

24
Set18

[LIVROS] | Tanta Gente, Mariana e As Palavras Poupadas

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A Minotauro está a reeditar a obra completa de Maria Judite de Carvalho, uma das escritoras portuguesas mais importantes do século XX que parecia ter ficado na sombra do esquecimento. Já me tinha deparado com este nome quando procurei alguns artigos sobre escritoras portuguesas, mas quando fui pesquisar pelos seus livros as edições ou eram muito antigas ou já estavam esgotadas. Felizmente, houve uma editora que resolveu fazer algo para contrariar este facto e o nome de Maria Judite de Carvalho, autora de contos, novelas, crónicas, uma peça de teatro e um livro de poesia, está de novo ao alcance da nossa vista, como bem o merece.

 

Por este motivo, não pude deixar de adquirir o primeiro volume das suas obras completas, que inclui as suas duas primeiras colectâneas de contos: Tanta Gente, Mariana (1959) e As Palavras Poupadas (1961), tendo este último sido Prémio Camilo Castelo Branco. Curiosamente, foi Tanta Gente, Mariana que arrebatou o meu coração. Deixo também uma nota de destaque para as capas destas edições, uma vez que são reproduções de quadros da autora. Fiquei maravilhada com esta capa, assim como com a do segundo volume que foi entretanto já publicado.

 

Confesso que já estava bastante confiante que ia adorar a sua obra, mas é sempre motivo de felicidade vermos correspondidas ou superadas as nossas expectavivas. Foi o que aconteceu, maravilhei-me com o primeiro conto, homónimo da primeira colectânia, Tanta Gente, Mariana. A escrita tem o ritmo certo e um equilibrio de sofrimento com humor praticamente perfeitos. Vamos navegando ao longo das suas palavras, à medida que vamos conhecendo os pensamentos de Mariana, o seu sofrimento e angústia, a sua impaciência e incapacidade interior de tolerar gente tacanha e conformada, em contraste com a fatalidade que lhe é inerente ao seu espírito. Este conto tem um poder magnético muito forte, dei por mim submersa nele, desejando que não terminasse.

Sinto-me só, mais do que nunca, ainda que sempre o tivesse estado.

 

Apesar de o meu conto preferido se encontrar na primeira colectânea, ambas são equilibradas e muito consistentes, revelando um retrato da sociedade da época, em simultâneo com a intemporalidade das suas palavras, abordando temas como a solidão e o desespero. Como já aqui escrevi diversas vezes, tenho alguma dificuldade em adaptar-me a este género literário, mas neste caso não houve dificuldade alguma, adorei tudo, o ritmo, o desenvolvimento das histórias, os finais, a mensagem e, sobretudo, os monólogos interiores. Tudo está na proporção certa, deixando-nos com vontade de regressar. Ansiosa para ler mais desta autora.

Agora estou aqui e nem de ler sou capaz. Sei que vou morrer e essa certeza basta-me, é como que calmante. Perante ela tudo desaparece. Mas às vezes também tudo vem, é conforme a cor dos dias. Os cinzentos correm moles, desconsolados, amassados com lágrimas. Os negros, gasto-os a desfiar para mim própria toda a minha existência falhada. Acontece-me pensar se essa existência teria sido diferente, melhor, senão mais longa pelo menos mais bem aproveitada, tendo eu procedido de outro modo, seguido outros caminhos. E não. Não fui eu que resolvi. Não fui eu a abrir as mãos que, vejo-o agora, já estavam abertas. Fui forçada a agir e também a ficar quieta. Eu às vezes ia por uma rua larga, a ver o caminho livre e dava de súbito, inesperadamente, com uma parede. Já era tarde para recuar e então tinha de procurar de qualquer modo sair dali ou então desistir e deixar-me ficar. Não era eu quem construía o muro, não era eu também quem adiantava o tempo. Tudo lá estava, preparado para a minha chegada, à minha espera.