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Mais Mulheres Por Favor

11
Set17

[LIVROS] | Um Quarto Só para Si

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Um Quarto Só para Si, ensaio publicado em 1929, baseia-se em duas conferências com o tema As Mulheres e a Ficção dadas por Virginia Woolf a um público feminino. É mundialmente reconhecido como uma obra clássica feminista onde Virginia reflecte, de forma muito clara, porém carregada de ironia, acerca da forma como a educação e a sociedade influenciaram a presença das mulheres na literatura. Esta presença foi quase nula até à segunda metade do século XVIII, época em que surgiram os nomes de Jane Austen, das irmãs Brontë e George Eliot (Mary Ann Evans), responsáveis por obras incontornáveis da literatura como Orgulho e Preconceito, O Monte dos Vendavais (Emily Brontë) e Middlemarch.

 

No início deste ensaio, Virginia Woolf alerta o seu auditório que: o que vou descrever não existe: Oxbridge é uma invenção; Ferhnam também; "eu" é somente um termo conveniente para alguém que não tem uma existência real. As mentiras hão-de fluir dos meus lábios, mas talvez possa haver alguma verdade misturada nelas; cabe-vos procurar e encontrar essa verdade e decidir se vale a pena guardar qualquer fracção dela. Caso contrário ides atirar, evidentemente, tudo para o cesto dos papéis e esquecer. Feita a ressalva, como podemos não nos apaixonar de imediato por Virginia Woolf?

 

O papel de superioridade que os homens assumiram ao longo de séculos em relação ao sexo feminino e a falta de condições financeiras, de um espaço espaço próprio e de educação, reflexo de uma sociedade patriacal, são constantemente reforçados por Virginia como as causas fulcrais para as mulheres terem surgido tão tarde, e a muito custo, na literatura.

Mas aquilo que acho deplorável, continuei, olhando outra vez para as prateleiras, é que nada se saiba sobre as mulheres anteriores ao século XVIII. Não surge qualquer pista no meu espírito para me voltar para este lado ou para aquele. Eis-me a indagar porque razão as mulheres não escreveram poesia na época isabelina; e não sei como foram educadas: se as ensinavam a escrever; se tinham salas de estar para si; quantos filhos tinham antes dos vinte e um anos; o que, resumindo, faziam das oito da manhã às oito da noite.

 

Uma vez ultrapassada a barreira social e educional que impedia que as mulheres tivessem as mínimas condições para escrever, Virginia Woolf chama a atenção para as dificuldades que as primeiras mulheres que se aventuraram nesse caminho sentiram: A indiferença do mundo que Keats, Flaubert e outros homens de génio acharam tão difícil de suportar, era, no caso delas, não a indiferença, mas a hostilidade. O mundo não lhes dizia como dizia a eles: "Escrevam se quiserem; é-me indiferente". O mundo dizia com uma gargalhada grosseira "Escrever? Para que serve o que escrevem?".

 

Ao longo desta leitura somos diversas vezes confrontados com a visão prática que Virginia Woolf tem do mundo. Sempre muito acertiva, defende acerrimamente que a independência financeira da mulher é um factor fundamental para que esta possa ser livre para escrever: A poesia depende da liberdade intelectual. E as mulheres têm sido sempre pobres, não só durante duzentos anos, mas desde o início dos tempos. As mulheres têm tido menos liberdade intelectual do que os filhos dos escravos atenienses. Assim, as mulheres não têm sido bafejadas pela sorte para escrever poesia. É por isso que tenho posto tanta ênfase no dinheiro e num quarto só para elas.

 

Esta opinião já vai longa e tal deve-se ao mérito das palavras de Virginia Woolf. Fiz imensas anotações e senti, desde o início, uma relação muito forte com este livro, com esta escritora e com a mensagem feminista transmitida. Toda a experiência de leitura de mulheres que se preocupam em analisar a causa feminina e em procurar soluções, sempre com a esperança de que havemos de ultrapassar todas as barreiras que nos foram e são colocadas, deixou-me muito sensibilizada ao ponto de não reconhecer a alma geralmente insensível que habita em mim. Deixo-vos mais umas partes (épicas) deste livro maravilhoso, leiam-nos enquanto imaginam Virginia a discursar para uma plateia universitária feminina, há 88 anos atrás.

 

Que talento, que integridade devem ter sido exigidos em face das críticas a que estavam sujeitas, no meio daquela sociedade puramente patriacal, para segurarem com firmeza uma coisa tal como a viam sem se violentarem. Apenas Jane Austen e Emily Brontë o conseguiram. É, talvez, o mais belo motivo de orgulho. Escreveram como as mulheres escrevem, não como os homens.

 

Portanto queria pedir-vos que escrevêsseis todo o tipo de livros, sem hesitar perante qualquer assunto por muito trivial ou vasto que seja. De uma maneira ou de outra, espero que tenhais bastante dinheiro vosso para viajar e saborear o ócio, para contemplar o futuro ou o passado do mundo, para sonhar em cima dos livros, parar às esquinas das ruas e permitir que uma linha do vosso pensamento mergulhe no seu curso.

 

Numa escala de zero a dez classifico-o como: obrigatório.

 

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