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Mais Mulheres Por Favor

27
Set17

[LIVROS] | Trinta e Oito e Meio

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Tenho um amor especial por livros de crónicas, no entanto, nunca havia lido um livro deste género escrito por uma mulher. Maria Ribeiro, nascida no Rio de Janeiro, é licenciada em Jornalismo, actriz de cinema e televisão, realizadora de documentários e cronista do jornal O Globo e da revista TPM. Participou recentemente no filme Como Nossos Pais, da realizadora Laís Bodanzky, filme que gostava muito que chegasse às salas de cinema de Portugal brevemente (fica o apelo). Agora que as apresentações estão feitas, acrescento uma coisa: vão desejar que esta mulher se torne vossa amiga depois de lerem Trinta e Oito e Meio.

 

Maria Ribeiro tem um talento especial para as crónicas, tem graça, é irónica, fala abertamente do que sente e das suas angústias, do que gosta e do que gostaria de ser. É impossível não nos identificarmos com o que escreve, algo que valorizo muito nas crónicas e que me faz adorar este género literário.

É que, assim como qualquer pessoa com o mínimo de angústia, não sou quem gostaria de ser. Meu "eu ideial" conheceria Machu Picchu e as savanas africanas, teria lido toda a obra do Tolstói (em vez da colecção do Tintim) e pediria, com água na boca, salada com grelhado em todos os restaurantes. 

A supra-eu acordaria cedo. Faria suco verde com folhas orgânicas enquanto leria os colunistas políticos e as resenhas de lançamentos literários. Nada de pão com manteiga vendo notícias da TV. Aliás, nada de TV. Às 11 da manhã eu já teria feito ioga e estaria pronta pra ir com meu filho pequeno à pracinha. Eu acharia uma delícia ir à pracinha e brincaria não só com meu filho, mas com vários bebês (e se um bebê empurasse meu filho eu jamais teria raiva, imagine!). Uma hora depois eu estaria no carro com meu outro rebento pra levá-lo à escola, e no caminho iríamos ouvindo as principais sinfonias de Beethoven, um absurdo essa gente que se rende a Michel Teló.

Ao longo da leitura de Trinta e Oito e Meio, Maria Ribeiro torna-se nossa amiga, faz-nos desejar que fosse nossa irmã (eu, que não tenho irmãos, fiquei com essa vontade), faz-nos rir e emocionar, dá-nos vontade de a abraçar, de a ter sempre perto de nós, tal a energia contagiante que transparece nos seus textos

Mas este misto de corpo e mente que vos fala é feito de água e Leonídio, órgãos e Leonídio, músculos e Leonídio. E enquanto eu estiver aqui meu pai vai estar mais do que vivo.

Meu progenitor me deixou uma herança de fúria e afecto, e assim espero atravessar muitas águas de março, agradecendo ao mês que trouxe meu filho e levou meu pai, e cuja brisa me amansa o coração. 

Há crónicas sobre Clarice Lispector, maternidade e a situação familiar complexa, mas tão comum actualmente, em que vive e sobre a qual fala de uma forma tão natural e leve que nos deixa de sorriso no rosto.

Clarice Lispector dizia que, se o mundo fosse justo, as mulheres teriam direito a três vidas: uma pra se dedicarem ao amor, outra à profissão e uma última à maternidade. Eu incluiria ainda uma existência inteira pra ir ao cinema e outra pra conhecer o mundo, mas preciso admitir que a derradeira opção da escritora tem a vantagem de ser a única a contemplar de uma só vez dois momentos sublimes do cromossomo X: o nascimento de um filho e também o de uma mãe. Procriar é ter a infância de volta e poder dormir tarde ao mesmo tempo; o melhor dos mundos ao alcance das mãos.

E pro meu filho, que volta e meia se confunde e às vezes fica triste com essa família meio torta, com duas irmãs que não são filhas da mamãe, um irmão que vai chegar e não é filho do papai, eu digo:

Eu não digo nada. Digo que o amo muito, e o deixo chorar um pouco. E, como num mundo ideal, onde os amores se acumulam e não são substituídos, ele pergunta: "Mãe, e o bebê, com quem vai parecer?" E eu, grávida de oito meses de mais um menino, respondo: "Ah, João, com você, comigo, com o Caio..." E ele, depois de um tempo: "E com o meu pai, né, mãe?"

Sorrio. "E com o seu pai, filho. Com o seu pai."

 

Estou completamente apaixonada por escritoras brasileiras, com o sotaque e a graça que transborda a cada parágrafo, a cada página, a cada crónica, e tal deve-se, em grande parte, a Maria Ribeiro. Leiam-na também.

 

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