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Mais Mulheres Por Favor

25
Set17

[LIVROS] | Poesis

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Toda esta aventura do Mais Mulheres Por Favor resultou, em grande parte, de ter dedicado alguns meses deste ano à leitura de poesia escrita por mulheres. Como tal, não poderia adiar mais tempo a minha opinião sobre o último livro de poesia que li: Poesis, de Maria Teresa Horta.

 

Poesis resulta de uma ideia brilhante: descrever o processo criativo em que consiste a escrita da poesia. Está organizado em sete partes, Vocação, Invocação, Avocação, Convocação, Provocação, Evocação e Ad Finem, no final dos sete processos, um poema intitulado de Epopeia, um dos meus preferidos, e que resume o conteúdo deste livro.

Esta é a minha epopeia

feita de poesia

perdimentos e palavras

 

sem deuses sem batalhas

sem heróis nem lágrimas

sem o bronze das armas

 

Poema a poema a poema

paixão após fulgor após beleza

na sua dimensão mais ávida

 

Poesis tornou-se num dos meus livros preferidos de poesia pela ideia original e pelos poemas magníficos que Maria Teresa Horta escreveu e que fizeram deste livro algo absolutamente épico. Pessoal e intimista, Poesis contém nele tudo o que sentimos quando lemos poesia e imaginamos o que está por detrás da sua escrita, quando pensamos em escrevê-la e quando nos aventuramos a fazê-lo, pelo menos é assim que imagino o seu processo criativo.

 

É difícil escolher, entre tantas marcações, alguns dos meus preferidos para vos aguçar ainda mais a curiosidade, mas deixo-vos alguns abaixo juntamente com uma recomendação: leiam este livro que é, sem dúvida, um verdadeiro hino à poesia, tenho a certeza que vai fazer brotar nos vossos corações um amor especial por esta arte ou enraizar ainda mais o vosso amor, caso já lá habite.

Traços furtivos

 

Sinto-lhe os traços

furtivos

no côncavo da minha mão

 

ganhando estranhezas súbitas

agudezas, desvarios

dos meus sentidos perdidos

a prender-me o coração

 

a descer até ao fundo

pela rasura do braço

até chegar ao desvão

na delgadeza do pulso

 

É a poesia que chega

tomando forma e ruído

a falar o que eu não digo

 

Reler-me

 

Releio-me

no próprio espanto

silenciado

 

Reencontro-me

 

na poesia primeiro

em seguida no verso

e por fim no poema

 

inteiro

 

As rédeas do vento

 

Nunca pressinto o banal

arrumando

a minha vida

 

eu tomo as rédeas

do vento

galopo a fímbria dos dias

 

desato o nó

dos cabelos

vou voando na poesia