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17
Out17

[LIVROS] | Os Diários da Princesa

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O meu gosto pelo universo Star Wars é relativamente recente. Apesar de ter visto os seis primeiros filmes há quase 10 anos, foi quando assisti ao episódio VII (O Despertar da Força, 2015) que o bichinho se entranhou em mim definitivamente. Curiosamente, foi nessa altura que comecei a coleccionar figuras das personagens femininas da saga, primeiro a Rey, depois a Princesa Leia e, finalmente, a Jyn Erso (Rogue One). Neste momento já tenho várias versões de cada uma e estou sempre em busca de mais.

 

Quando começaram a aparecer nas redes sociais referências ao livro de Carrie Fisher   (The Princess Diarist), em Outubro de 2016, fiquei automaticamente à espera que fosse editado em Portugal. Infelizmente, Carrie faleceu dois meses depois da publicação deste livro, facto que aumentou exponencialmente o meu desejo de saber mais sobre a mulher por detrás da Princesa Leia. Assim, aguardei pacientemente até Setembro de 2017 para ver finalmente cumprido o desejo de ter este livro nas minhas mãos.

 

Embora não lhe reconheça uma excelente qualidade literária, foi muito bom conhecer o que Carrie Fisher experienciou quando, antes de completar 20 anos, foi sozinha para Londres gravar o primeiro filme da saga Star Wars, onde era a única rapariga numa fantasia virada para rapazes. Destaco o facto de que Carrie ganhou o papel de Leia com a condição de perder cinco quilos, coisa que acabou por não fazer (conquistando imediatamente o meu coração).

 

É frequente sermos confrontados com os pensamentos da Carrie daquela época, que não fazia ideia do impacto que esta participação iria ter na sua vida (para sempre), devidamente conduzidos pela Carrie quarenta anos mais velha, mais sábia, e um pouco amargurada por ter sido sempre vista como a Princesa Leia, antes de ser Carrie Fisher, algo que não pode deixar ninguém indiferente. Até que ponto a fama pode interferir na vida destas pessoas, o que pode provocar na sua auto-estima, nos seus pensamentos, no seu dia-a-dia, durante anos e anos a fio?

Mas a verdade é que passei uma boa parte da minha vida, começando aos 19 e continuando, 40 anos mais tarde, a ser tanto eu como a Princesa Leia. A responder a perguntas relacionadas com ela, a defendê-la, a fartar-me de ser confundida com ela, a ser ofuscada por ela, a debater-me com o ressentimento que nutria por ela, a torná-la minha, a procurar por mim, a fazer-lhe companhia, a amá-la... a desejar que ela fosse finalmente embora e me deixasse em paz.

Os Diários da Princesa, para além dos relatos do percurso até às filmagens do filme que mudaria incontornavelmente a sua vida, da fama que se instalou definitivamente e das sessões de autógrafos, foca-se bastante na relação amorosa que Carrie teve com o seu coprotagonista Harrison Ford (na altura, com 30 anos e casado), durante as gravações, e que sempre foi mantida em segredo. A meio do livro são-nos também apresentadas páginas dos seus diários da época, onde podemos ler uma jovem loucamente apaixonada, consciente de que tudo aquilo iria resultar em sofrimento. Uma das minhas partes preferidas do livro pela loucura consciente que Carrie, tão jovem, conseguiu colocar por escrito.

O meu pânico, a minha sensação de demérito e de isolamento estão de novo a crescer. E, aparentemente, não há outras sensações que mereçam ser mencionadas. Não é agradável estar dentro da minha mente. É um lugar agradável para se visitar, mas não quero viver aqui. Está excessivamente sobrepovoada; muitas armadilhas e ciladas. Estou farta disso. Sempre a mesma pessoa, dia após dia. Gostaria de experimentar outra coisa. Tentei arrumar a minha mente, arquivar tudo em pequenos pensamentos ordenados, mas só ficou cada vez mais desordenada. A minha mente tem uma mente própria. Tento definir os meus limites vendo até onde consigo ir, e constato que já os ultrapassei há semanas. E tenho de encontrar o caminho de volta.

 

Não deixam de ser curiosas as referências que Carrie faz ao que seria dito sobre ela após a sua morte, justificando o que conta no seu livro, como se sentisse que era altura de garantir que não haveriam equívocos, que ela iria dizer o que havia para dizer, numa altura em que não haveria grande impacto ou sofrimento para ninguém, já que tinham passado tantos anos. 

Além disso, se não escrevesse sobre este assunto, alguém o faria. Alguém sem conhecimento directo da "situação". Alguém que aguardasse covardemente até à minha morte para especular sobre o que sucedera, deixando-me ficar mal. Não.

 

Se gostam de Star Wars, da Princesa Leia e se querem honrar a memória de Carrie Fisher, sabendo quem esta realmente era (pelo menos, o que nos é desvendado), leiam este livro.

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