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18
Jan18

[LIVROS] | Fábrica de Melancolias Suportáveis

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Fábrica de Melancolias Suportáveis é o primeiro romance de Raquel Gaspar Silva, natural de Évora, que tem também o projecto de poesia #domesticliteraturemovement, onde publica com o pseudónimo de rawquel (podem ver mais aqui, instagram: @rawquel_poetatura). O título do livro cativou-me desde que o vi pela primeira vez, mas confesso que não criei grandes expectativas, apenas sentia que havia uma forte possibilidade de gostar e uma enorme curiosidade por conhecer a obra de estreia desta escritora portuguesa.

 

Felizmente, fui surpreendida pela escrita marcante e pelos pormenores tão tipicamente portugueses que encontramos em cada página, como se nos sentíssemos em casa de tão familiar que é, com tudo o que de bom e de mau esses pormenores contenham. É um retrato de Portugal no pré e pós 25 de Abril que, apesar de não ter vivido na primeira pessoa, é facilmente identificável já que hábitos, gestos e tradições tão intrinsecamente nossos não desaparecem por mais décadas que passem, tendem a perpetuar-se. 

[Nos lugares que parecem esquecidos de todos, a vida toma um rumo descontrolado. Não há medida para o absurdo e o tempo desenvolve-se com imperfeições. As pessoas aceitam a loucura, são a loucura, frutificam loucura. Mesmo fugindo do epicentro, a loucura atravessa toda a geografia para se depositar no mais íntimo do fugitivo, tornando-se normalidade e racionalidade. Quem foge, é louco. Quem fica, é louco. É a vida natural, cíclica. É a vidinha.]

Pela visão de Carlota, acompanhamos o desenrolar das vidas de uma família do Alentejo, bem como as tradições, os preconceitos e as obrigações que caracterizavam a sociedade da época. Senti uma forte ligação com Carlota e adorei cada acto e cada decisão sua. 

Carlota chorava copiosamente, porque as ossadas da avó iriam confundir-se com tantas outras dos despojos do pé de carneiro. Era muito pequena para encontrar outro motivo para chorar, haveria de sentir verdadeiramente a falta da avó mais tarde, quando nenhum outro compreendesse os motivos da sua rebeldia e haveria de chorá-la silenciosamente até não conseguir sossegar o peito.

A obra de estreia de Raquel Gaspar Silva conquistou-me durante a sua leitura, mas também quando soube que se trata de uma obra ficcionada contada com base numa história que Raquel conhecia. Pretendo ler mais da autora assim que forem publicados mais romances (espero que não falte muito tempo).

[O destino é simplesmente biografia. A sentença da vida é o material que nos é dado para cumprirmos a nossa tarefa, andando ou correndo pelo caminho que escolhemos. Não há sentidos secretos, a vida é viagem e luta para se morrer depois. Para quê mascarar a verdade se todos os objetos do mundo têm fim? Até os menores movimentos alcançam uma paragem.]