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14
Nov17

[LIVROS] | Atos Humanos

 

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Depois da magnífica experiência que foi ler (e reler) A Vegetariana, as expectativas para Atos Humanos era bastante elevadas. Incrivelmente, este livro tocou-me ainda mais e tornou-se o meu preferido da autora. É muito distinto de A Vegetariana, quer em termos de estrutura, como de escrita e do que nos é contado, mas entranhou-se por completo no que são os meus gostos literários actuais.

 

Atos Humanos é um retrato comovente e terrivelmente duro da tensão e do massacre que se verificaram em 1980, na Coreia do Sul, especificamente na região de Gwangju. Está dividido em sete partes, relativas a sete pessoas diferentes e a momentos temporais também distintos, mas que se relacionam entre si, sendo a última parte um epílogo da escritora.

Não era que não soubéssemos que os soldados eram em número incrivelmente superior ao nosso. Mas o mais estranho é que isso não nos importava. Desde que a revolta começara, eu sentia uma coisa qualquer a correr-me nas veias, uma coisa tão avassaladora como qualquer exército.

Consciência.

Consciência, a coisa mais assustadora que existe no mundo.

Park Chung-hee instaurou, em 1979, a lei marcial, em resposta às manifestações que se faziam sentir no Sul do país, que indiciavam que o regime autoritarista (na prática, uma ditatura) resultante do golpe de Estado encabeçado por Park teria os dias contados. Park acabou por ser assassinado em Outubro de 1979 pelo chefe dos seus serviços de segurança, subindo, no entanto, ao poder Chun Doohwan, que partilhava os mesmos métodos firmes e autoritaristas de governação. Assim, em 1980, Chun estendeu a lei marcial a todo o país, restringiu ainda mais a liberdade da imprensa, encerrou universidades e proibiu actividades políticas, o que, naturalmente, fez agravar o clima de insatisfação com o regime, que já se manifestava fortemente. Na cidade de Gwangju, na sequência das decisões de Chun, verificaram-se manifestações estudantis, brutalmente silenciadas através do uso indiscriminado da violência, facto que resultou em milhares de pessoas mortas.

 

Han Kang dá voz a um conjunto de estudantes que vivenciaram os eventos desta época, aos seus receios e à incrível coragem que demonstraram em resistir e cuidar dos feridos e dos mortos, colocando em risco a sua própria vida. Muitos dos que sobreviveram foram sujeitos a tortura física e psicológica que deixou marcas profundamente traumáticas nas suas vidas. É também dada voz aos familiares destes, que buscavam desesperadamente por notícias suas no meio do caos e da desorganização que resultou da absurda brutalidade e desrespeito pelos corpos das vítimas deste massacre.

Todos os dias observo a cicatriz que tenho na mão. Este sítio onde outrora o osso esteve exposto, onde uma secreção esbranquiçada escorria de uma ferida putrefacta. Sempre que vejo uma vulgar esferográfica Monami, fico com a respiração presa na garganta. Espero que o tempo me arraste como a água enlameada. Espero que a morte chegue e me limpe, me liberte da memória dessas outras mortes esquálidas que assombram os meus dias e as minhas noites.

Dong-ho é a figura central deste livro, um rapaz que procura o melhor amigo entre os cadáveres de uma morgue improvisada, após terem estado numa manifestação que terminou de forma terrivelmente violenta, e em torno do qual surgem as restantes vozes deste poderoso livro, vozes que, de diferentes formas, se cruzaram no caminho de Dong-ho. Em termos literários e pessoais, o segundo capítulo (O Amigo do Rapaz. 1980) foi o que mais me impressionou.

 

Tal como referi antes, o livro termina com o testemunho da escritora, Han Kang, que, na época da revolta de Gwangju, tinha nove anos. Han Kang relata-nos a mudança de casa que a sua família se viu obrigada a fazer nessa época (mudaram-se de Gwangju para os arredores de Seul) e as conversas de preocupação que os familiares mantinham em voz baixa, fazendo também a ponte entre esta experiência pessoal e a necessidade que sentiu de relatar este acontecimento, mostrando-nos  de que forma chega à personagem central deste livro.

 

Atos Humanos é, portanto, um livro poderoso e universal, um monumento ao sofrimento dos que morreram e dos que sobreviveram com profundas e irreversíveis marcas no corpo e na alma, com reflexões fundamentais sobre a crueldade que caracteriza o ser humano. Um livro que deve ser lido por todos.

Serão os seres humanos fundamentalmente cruéis? Será a experiência da crueldade a única coisa que partilhamos enquanto espécie? Não passará a dignidade a que nos agarramos de uma ilusão para disfarçarmos, perante nós mesmos, esta simples verdade: que cada um de nós pode ser reduzido a um inseto, um animal voraz, um pedaço de carne? Que ser aviltado, magoado, esquartejado... é o destino essencial da humanidade, um destino cuja inevitabilidade a História confirmou?

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