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Mais Mulheres Por Favor

08
Set17

[EDITORIAL] | Mais Mulheres Por Favor

Além disso, dentro de cem anos, pensei ao chegar à minha porta, as mulheres terão deixado de ser um sexo protegido. Logicamente vão participar em todas as actividades e empregos que outrora lhes eram negados. A ama despejará carvão. A lojista conduzirá uma locomotiva. Todas as suposições assentes em factos, observadas quando as mulheres eram o sexo protegido, terão desaparecido (...).

 

Em 1929, Virginia Woolf, em Um Quarto Só para Si, previa que a mulher se emanciparia de forma estrondosa dentro de cem anos. A 12 de anos de atingirmos este prazo, é inquestionável que muita coisa mudou desde então, o debate feminista está mais aceso do que nunca, foram feitas conquistas muito importantes para a defesa dos seus direitos e o trabalho desenvolvido pelas mulheres é, finalmente, do mundo. A visibilidade que as mulheres têm tido nas redes sociais desempenhou um papel muito poderoso nesta causa e foi através de um destaque cada vez mais frequente que o feminismo me tocou de forma incontornável. Literatura, música, cinema, séries, fotografia, desenho, havia (e há) muito por onde escolher. De conta em conta, de página em página, fui descobrindo um número sem fim de recomendações literárias e cinematográficas, fotografias e ilustrações maravilhosas, todas com um denominador comum: mulheres.

 

Como seria de esperar numa apaixonada por livros, o meu primeiro contacto verdadeiramente consciente com a divulgação das mulheres na cultura foi, naturalmente, através desta arte. Chegaram-me à vista projectos deliciosos que me desassossegaram a alma, o espírito, os neurónios, ou o que lhe queiram chamar. Ganhei, automaticamente, muito afecto pelo Leia Mulheres, iniciado no Brasil por três amigas, Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, com o intuito de dar continuidade ao projecto #readwomen2014 da escritora Joanna Walsh, fazendo não só um convite à leitura de obras escritas por mulheres, mas transportando também esta iniciativa para livrarias e espaços culturais. O mesmo aconteceu quando conheci, pouco tempo depois, o Our Shared Shelf, um clube de leitura feminista criado por Emma Watson, que consiste em ler um livro escrito por uma mulher de dois em dois meses (no início, mensalmente), discutindo-o posteriormente.

 

Graças a estes projectos, comecei a dar mais importância à escolha das minhas leituras, tentando gerir um equilíbrio que se adivinhava difícil, já que cerca de 90% da minha estante era constituída por escritores. Não me obriguei a ler apenas mulheres, até porque nenhuma das iniciativas que referi anteriormente apela a tal acto, no entanto, as obras escritas por mulheres ganharam um grande destaque na minha estante e as minhas leituras (e compras) tornaram-se, com muita naturalidade, maioritariamente femininas.

 

Paralelamente ao meu crescente interesse por obras escritas por mulheres, tenho prestado muito mais atenção à participação das mulheres noutras áreas culturais que antes me passavam despercebidas. Vou fazendo muitas listas de filmes e séries que têm uma participação feminina activa, quer na produção, quer no conteúdo, e seguindo cada vez mais mulheres ilustradoras e fotógrafas, actrizes e cantoras. Sempre de sorriso no rosto, feliz da vida.

 

À medida que o meu entusiasmo com esta temática foi crescendo, senti um grande desejo de largar tudo e dedicar-me a um projecto de divulgação das mulheres nas várias áreas da cultura, já que me pareceu haver uma lacuna nesta área em Portugal (caso esteja equivocada, por favor mostrem-me todos os que existirem, prometo que olharei para cada um deles deliciada). E assim nasceu o Mais Mulheres Por Favor. Não sei se terei o tempo necessário para levar este projecto a bom porto (o que quer que seja que isso signifique), se serei teimosa e persistente o suficiente para tal, se precisarei de outras pessoas para me ajudar, se existirá um clube de leitura ou encontros periódicos para discutir obras (não necessariamente apenas livros) de mulheres, mas gostava muito (tanto) de sentir que, de alguma forma, posso contribuir para que alguém que por aqui passe dê mais atenção ao conteúdo produzido pelas mulheres.

 

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