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Mais Mulheres Por Favor

21
Dez17

[PROJECTOS] | Ler Poesia

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Os poemas podem ser extremamente confortantes ou abalar-nos por dentro, podem fazer-nos sorrir ou chorar, podem, também, passar-nos completamente ao lado. Ler um poema é, sem dúvida, uma experiência muito pessoal, introspectiva. O que sentimos ao ler um poema pode ser tão diferente daquilo que a pessoa que o escreveu sentiu, daquilo que qualquer outra pessoa que o leia sentirá, ainda assim, ficamos como que unidos pelas palavras, uma relação intensa e difícil de explicar. Julgo que a magia da poesia está precisamente no facto de todos os significados serem válidos.

 

Quando a Cláudia me propôs um projecto relacionado com poesia, não tive como recusar, os meus olhos brilharam instantaneamente. Há cerca de cinco anos, apaixonei-me irremediavelmente pela poesia e esta tem feito parte da minha vida desde então, especialmente durante este ano. É um amor que vai crescendo à medida que vou lendo mais poemas e conhecendo mais poetas e poetisas, mas que nunca acaba, existem tantos poetas e livros de poesia por descobrir.

 

Nasceu assim o Ler Poesia, que consiste em ler um livro de poesia por mês e fazer um vídeo ou um post com a opinião e com o vosso poema preferido. A ideia é divulgar os poetas e as poetisas dentro deste género e incentivar a leitura de poesia. É um género que exige alguma dedicação e persistência, mas que compensa tanto. Por este motivo, queremos partilhá-lo com mais pessoas. Quem se junta a nós?

 

20
Dez17

[LIVROS] | Karen

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Karen, de Ana Teresa Pereira, foi o vencedor (unanime) do prémio Oceanos 2017, tendo integrado também a shortlist do Prémio PEN Clube de Narrativa e do Prémio Fernando Namora, razões mais do que suficientes para não poder deixar de o ler ainda este ano.

 

Quando li dois livros de Ana Teresa Pereira (Se Nos Encontrarmos de Novo e Inverness), praticamente de seguida, há cerca de quatro anos, fiquei encantada com o poder da sua escrita, simples e envolvente. A escritora, nascida na Madeira, tem o poder de nos fazer vaguear pelas páginas dos seus livros em busca de respostas sobre o destino das personagens, mas também de nós próprios, primeiro, de forma muito subtil, mal nos apercebemos, depois, intensamente.

 

Este romance absorve-nos de forma quase claustrofóbica, faz-nos procurar urgentemente a saída, mas raramente obtemos respostas. A personagem principal acorda num lugar que não conhece, junto de pessoas que não lhe são minimamente familiares. Tendo a certeza de que não pertence àquele lugar e que as suas memórias não coincidem com o que lhe é dito, vive uma dualidade conflituosa, em busca de identificação, é quem pensa ser e quem lhe dizem ser. Um conflito interior que o leitor sente como se fosse seu e que torna esta leitura veloz.

Não fazia sentido, mas receava que eles me apanhassem nalguma contradição, nalguma frase, até nalgum gesto, que demonstrasse que eu não era Karen. Talvez porque isso poderia dar-lhes uma indicação de quem eu realmente era, e sentia necessidade de protegê-la, a rapariga de Londres com os seus jeans velhos e cabelo descuidado, e mãos um pouco ásperas, com restos de tinta nas unhas. A rapariga com o seu colar de prata comprado em Portobello, que passava tardes a ouvir música ou ler poemas e depois se aproximava da tela e se entregava a um ritual mágico, como se deitasse cinzas sobre a cabeça ou esfregasse cinábrio no rosto.

Tal como aconteceu com os outros romances, no início, tive a percepção de estar a ler uma história normal mas, quando dei por mim, estava completamente submersa no ambiente britânico, no mistério, na dúvida, na ansiedade e no desconforto que nos faz sentir. A meu ver, estes são os ingredientes típicos dos romances de Ana Teresa Pereira que, combinados de forma harmoniosa, ficam muito perto da perfeição. É definitivamente uma escritora portuguesa com uma obra sólida, constituída por mais de 20 romances, que merece toda a nossa atenção.

 

19
Dez17

[LIVROS] | Yoro

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Yoro, de Marina Perezagua, juntou-se ao conjunto dos livros mais duros que li este ano. O romance de estreia da escritora espanhola, que, até este livro, apenas se dedicara ao conto, é caracterizado por uma escrita com uma componente visual e visceral muito forte e conta com uma pluraridade de cenários, entre eles, Hiroxima, Nova Iorque e República Democrática do Congo, permitindo-nos fazer uma viagem não só geográfica, mas também pelo tempo. Se, por um lado, acompanhamos acontecimentos marcantes da história (a Segunda Guerra Mundial e o lançamento da bomba atómica em Hiroxima), por outro, somos confrontados com questões contemporâneas fracturantes.

 

Dividido em onze partes, Gravidez Zero, nove Meses e Parto, que, na verdade, correspondem a um período bastante longo (desde 1942 até 2014), Yoro deixa-nos inquietos, revoltados, destroçados, submersos na sua narrativa, contada na voz de H, H de Hiroxima, H letra muda (múltiplos são os seus significados), que, aos 13 anos, presenciou o acontecimento que mudou para sempre a história de Hiroxima e dos seus habitantes, mas também do mundo.

Foi no dia 6 de agosto de 1945. Aquela coisa tinha sido criada sem mãos capazes de empunhar armas, mas, naquele dia, destruiu mais de 200 mil pessoas e, embora também não tivesse boca, com um só sopro arrasou casas, árvores e fábricas. Embora a tivessem concebido sem calor humano, fundiu ferro e incenerou parques, cães e pássaros. Também não lhe tinham dado um sexo, mas puseram-lhe nome de menino, Little Boy, e, às 8h15 da manhã desse dia de céu limpo de agosto, aquele artefacto foi lançado sobre Hiroxima.

É a partir deste acontecimento que se desencadeia toda a história até ao momento presente (do qual temos um pequeno vislumbre no início do livro). H, prestes a ser capturada, escreve a história da sua vida, de forma fragmentada, recorrendo diversas vezes a analepses e prolepses, com o objectivo explicar o motivo de ter cometido um crime. Apesar do fio condutor desta história ser a busca de Jim por Yoro, que mais tarde se torna na busca dos dois, H e Jim, este livro representa muito mais do que a busca por uma criança, é a busca de H enquanto pessoa brutalmente marcada por uma experiência traumática.

 

Prefiro não desvendar nesta opinião tudo o que está em torno desta busca pessoal, mas posso adiantar que foi determinante para ter adorado este livro, já que se trata de uma temática que, com grande pena minha, ainda não tinha explorado literariamente e que não fazia ideia que iria surgir neste livro.

 

Apesar de estarmos familiarizados com o que aconteceu na época e com as consequências mais óbvias da radioactividade, que se fizeram, fazem e farão sentir durante muito tempo, é impossível não nos sentirmos esmagados pelo que é descrito neste livro. Trata-se de uma dor que dificilmente iremos experimentar, mas que, simultaneamente, nos deixa alerta, já que a ameaça da existência de várias (tantas) bombas nucleares é assustadoramente real.

 

Este livro descreve sem floreados nem meias palavras o que aconteceu às vítimas da bomba atómica, relata pormenores que me eram completamente desconhecidos e que todos precisamos saber. É esmagador, mas essencial. Para além disso, Yoro faz uma ponte muito pertinente com um desastre humanitário bem actual, em África. Juntamente com H, somos enviados para os ambientes subterrâneos e claustrofóbicos das minas de urânio, coltan e ouro, entre a Namíbia e a República Democrática do Congo, locais onde dignidade humana, pura e simplesmente, não existe. Locais onde as organizações mundiais, que deviam proteger estas pessoas e regulamentar o comércio destes materiais, são coniventes com a exploração levada a cabo pelas grandes potências mundiais, dependentes de recursos para garantir o avanço tecnológico e para se protegerem de uma, mais que provável, guerra. Nesta fase final do romance, comprovamos derradeiramente que a escrita de Marina Perezagua é, de facto, muito poderosa, horroriza e sufoca, esmaga.

Em África, o tempo não é só de ouro. É ainda mais valioso. O tempo é de urânio. Os negros não merecem ser informados, nem sequer sobre o porquê da morte que lhes sobrevém, essa morte a que não reununciariam, porque a necessidade de encher a sua própria boca, ou a do filho, as dos filhos, ou as dos pais, sente-se como mais premente. A fome, essa lei fisiológica, não se esconde, pelo contrário, manifesta-se. A radiação, em compensação, é o modo que a morte tem de saciar a sua fome: o silêncio.

Urânio. O seu simples nome parecia-me vir dos infernos, como Úrano, aquele deus, filho e esposo, precisamente de Gea, a Mãe Terra. O urânio era o que tinha mudado a minha vida. Tinha-me tirado os meus pais, avós, amigos, tinha arrasado a minha cidade, destruído o meu país, insultado a raça humana, e, contudo, continuava a ser, para quase todos os países, o ouro mais cobiçado, o ouro radioativo (...).

Este é um livro que aborda questões históricas, sociais, culturais e humanitárias, que põe a nu o que se seguiu à bomba nuclear e, mais recentemente, a crise humanitária que se vive em África em consequência do avanço civilizacional insustentado e sem precedentes, conduzido pelos interesses de países que deixam os direitos humanos no plano mais subterrâneo que pode existir. Recomendo vivamente e deixo o pedido que editem brevemente os contos de Marina Perezagua que, para além de escritora e professora, já percorreu a nado o Estreito de Gibraltar em menos de quatro horas.

 

15
Dez17

[DISCOS] | TOP 10 + 2

Os Top 10 de álbuns do ano são uma tradição de Dezembro à qual é difícil fugir se formos amantes de música e estivermos a par das novidades. É uma excelente forma de se fazer um resumo do ano e um exercício muito útil para percebermos se andamos agarrados às mesmas músicas de sempre ou se continuamos a descobrir novos álbuns e novas bandas.

 

Este ano dei especial atenção à presença feminina nas bandas e fui agradavelmente surpreendida. Conheci novas bandas que entraram directamente para os favoritos de sempre, com álbuns recheados de músicas fantásticas, que se podem ouvir do início ao fim sem saltar faixas, álbuns que não se resumem a um único single. Álbuns com mensagens importantes, álbuns de estreia, álbuns de consolidação, álbuns revolucionários. Para além das descobertas, também tive a oportunidade de ouvir os novos álbuns de bandas que já acompanhava e foi tão bom regressar.

 

É verdade que sou particularmente tendenciosa com o género de música que ouço, não faço grandes desvios, sou conservadora dentro do alternativo, sem dramas, sem preconceitos. Descobri o meu género de eleição e não tenho a disponibilidade necessária (nem a paciência, confesso) para fazer esforços para gostar de outras coisas, gosto do conforto, mas vou descobrindo bandas e álbuns novos dentro do que são os meus gostos. Quando me apaixono por uma banda de um género ao qual não estou habituada, faço-o repentinamente, gosto e pronto.

 

Também acontece não gostar logo na primeira vez que ouço, esqueço, volto a ouvir num acaso e faz-se o clique, adoro, vou a correr ouvir o álbum todo, álbum preferido da vida. Faz parte de mim, já não sei viver de outra maneira. Foi o caso de Myrkur, projecto musical de black metal da dinamarquesa Amalie Bruun, sobre a qual tenho de vos falar com urgência.

 

O ano de 2017 foi excepcionalmente rico na música que ouvi e nas aquisições que fiz. Quase todos os álbuns pelos quais me apaixonei (e que estão todos neste Top 10, nenhum ficou de fora), estão em casa, em vinil, alguns em edições de perder a cabeça, outros em edições clássicas (que vos hei-de mostrar em breve, tenho andado em falta neste campo, bem sei). Na verdade, o único que não tenho é porque não existe em vinil (Mallu, trata lá disso).

 

Ficam então os 10 melhores álbuns de 2017 de bandas parcial ou integralmente femininas, de acordo com os meus gostos pessoais. A ordem é praticamente aleatória já que é díficil estabelecer diferenças e posições entre eles, todos têm um lugar especial no meu coração.

 

1. The Big Moon - Love In Ihe 4th Dimension
2. Myrkur - Mareridt
3. Marika Hackman - I'm Not Your Man
4. Wolf Alice - Visions Of A Life
5. Cherry Glazer - Apocalipstick
6. St. Vincent - Masseduction
7. Alvvays - Antisocialites
8. Pega Monstro - Casa de Cima
9. Mallu Magalhães - Vem
10. Angel Olsen - Phases

 

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Deixo também dois álbuns espectaculares de 2016 que apenas descobri este ano.

 

Weyes Blood - Front Row Seat To Earth
Myrkur - Mausoleum

 

Quais foram as vossas descobertas musicais em 2017?

 

07
Dez17

[LIVROS] | A Guerra não Tem Rosto de Mulher

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A Guerra não Tem Rosto de Mulher, de Svetlana Alexievich, foi, sem dúvida, o livro mais duro que li em 2017. É certo que o ano ainda não terminou, mas creio ser impossível que qualquer livro que venha a ler durante o mês de Dezembro reúna a combinação de sentimentos que este livro provocou em mim. 

 

Prémio Nobel da Literatura em 2015, Svetlana Alexievich era uma das mulheres que mais queria ler este ano. Decidi começar por este livro devido à sua temática, desconhecendo na época que se tratava da sua estreia literária, em 1985. Esta edição não é a original, mas sim a versão de 2002, onde Svetlana reescreveu e acrescentou novos excertos a esta obra, já que anteriormente a censura não lhe havia permitido publicar livremente tudo o que pretendia.

 

O sufoco constante que este livro nos faz sentir forçou-me a fazer diversas pausas, por vezes bastaram horas, noutras foram necessários dias até conseguir retomar a sua leitura. Somos acompanhados por uma sensação de incredulidade e desconforto absurdamente esmagadora ao longo dos excertos das entrevistas feitas por Svetlana durante quatro anos a centenas de mulheres e alguns homens que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Para além de terem sobrevivido à invasão, ocupação e à guerra que decorreram entre 1941 e 1945, todas estas mulheres russas estiveram, de uma ou outra forma, em combate, foram atiradoras, cirurgiãs, enfermeiras, conduziram tanques e pilotaram aviões, entre muitas outras funções associadas ao ambiente bélico.

 

Não existiram limites para estas jovens mulheres que sentiram a obrigação de defender a sua Pátria quando se temeu a derrota frente à poderosa invasão alemã. Perante a incredulidade dos homens que combatiam e chefiavam o Exército Vermelho, estas aprenderam o ofício da guerra, lutaram, sofreram, resistiram, cuidaram, chegaram mesmo a ser distinguidas e condecoradas mas, depois, caíram no esquecimento. É, portanto, da maior importância o trabalho realizado por Svetlana Alexievich que, com uma mestria que jamais havia conhecido e num género literário, para mim, completamente inédito, construiu uma obra-prima polifónica, um verdadeiro monumento ao sofrimento e à coragem.

Só mais tarde, passados trinta anos, começaram a homenagear-nos... A convidar-nos para vários encontros... Mas nos primeiros tempos ocultávamos tudo, não usávamos condecorações sequer. Os homens usavam, as mulheres não. Os homens eram vencedores, heróis, moços casadoiros, eles tiveram uma guerra, para nós toda a gente olhava com outros olhos. Bem diferentes... Digo-te mais, arrebataram-nos a vitória. Trocaram-na discretamente pela simples felicidade feminina. Não partilharam a vitória connosco. Ressentíamo-nos... Não compreendíamos... Porque na frente os homens trataram-nos maravilhosamente bem, sempre nos tentaram proteger, não observei esta atitude com as mulheres na vida normal.

Este livro reúne um conjunto de relatos, ligados entre si de forma soberba, que nunca deverão ser esquecidos e que todos deviam conhecer, não se tratando de um relato de guerra em si, mas do que mulheres e homens viveram colectiva e individualmente. O medo, a fome e o frio que sentiram, o que os fazia sobreviver mais um dia, como foi aprender a matar e efectivamente fazê-lo? Que marcas ficaram, como é viver depois de ter experienciado um dos, se não o mais, marcante dos acontecimentos?

 

A Guerra não Tem Rosto de Mulher é de uma dureza perturbadora e tremendamente emocionante, faz-nos chorar pelo sofrimento cravado em cada página, mas também de orgulho pela coragem e pelas conquistas destas mulheres. Colmatou uma lacuna no meu conhecimento de uma forma arrebatadora e que jamais irei esquecer. Svetlana conquistou um lugar especial no meu coração e pretendo ler mais livros seus em breve.

Hoje penso: era preferível ter sido ferida numa perna ou num braço, para que só me doesse o corpo. Não a alma... A dor é grande. Fomos combater muito novinhas. Meninas. Até cresci durante a guerra. A mãe mediu-me em casa... Cresci dez centímetros...