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Mais Mulheres Por Favor

16
Nov17

[LIVROS] | As Coisas Que Perdemos no Fogo

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As Coisas Que Perdemos no Fogo, da escritora Mariana Enriquez, nascida em Buenos Aires, contém uma carga negra, fantasmagórica e inquietante, à qual é impossível ficar indiferente, à medida que atravessamos os seus doze contos.

 

Está longe de ser um género literário com o qual me sinto confortável, já que histórias repletas de momentos macabros e assustadores não costumam constar na minha lista de leituras habituais. Ainda assim, foi uma excelente experiência já que, para além de ter saído da minha zona de conforto, fiquei bastante encantada com a escrita e capacidade criativa de Mariana Enriquez

Sabes lá se não fez uma revisão ao carro, respondi eu, furiosa, e pensei que seria fácil matá-lo ali, podia ir buscar uma chave de fendas ao porta-bagagens e espetar-lha no pescoço, ele a mim não me queria matar, só queria tratar-me mal e quebrar-me para que eu detestasse a minha vida e não me restassem sequer forças para a tentar mudar.

Os momentos de suspense das histórias misteriosas, fantasmagóricas e macabras deixam-nos envoltos num ambiente de mistério do qual não conseguimos sair com facilidade. Aquelas histórias acompanham-nos, entranham-se na nossa mente, persistindo na nossa memória. Sem intenção propositada no momento da escolha deste livro, fiz esta leitura no final do mês de Outubro, época tradicionalmente associada ao terror, e tenho a dizer-vos que ler este livro na noite de Halloween foi uma experiência deliciosamente assustadora e que vos recomendo se não estão habituados a ler livros deste género.

Uma semana depois de deixar de comer, o meu corpo muda. Quando ergo os braços, as costelas aparecem, embora não demasiado. Sonho: um dia, quando me sentar neste chão de madeira, em vez de nádegas terei ossos, e os ossos atravessarão a carne e deixarão rastos de sangue no pavimento, rasgarão a pele por dentro.

Os meus contos preferidos foram O Rapaz Sujo e As coisas que perdemos no fogo, primeiro e último, respectivamente. O Rapaz Sujo porque foi o conto que mais me marcou, impressionou e colocou em estado de alerta, e As coisas que perdemos no fogo pela carga feminina imposta, já que se tratam de relatos de violência doméstica onde as mulheres são brutalmente queimadas e da luta que daí resulta, um conto muito poderoso e perfeito para o encerramento desta colectânea. Sendo esta a primeira obra editada de Mariana Enriquez em Portugal, fico à espera das próximas com grandes expectativas.

 

14
Nov17

[LIVROS] | Atos Humanos

 

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Depois da magnífica experiência que foi ler (e reler) A Vegetariana, as expectativas para Atos Humanos era bastante elevadas. Incrivelmente, este livro tocou-me ainda mais e tornou-se o meu preferido da autora. É muito distinto de A Vegetariana, quer em termos de estrutura, como de escrita e do que nos é contado, mas entranhou-se por completo no que são os meus gostos literários actuais.

 

Atos Humanos é um retrato comovente e terrivelmente duro da tensão e do massacre que se verificaram em 1980, na Coreia do Sul, especificamente na região de Gwangju. Está dividido em sete partes, relativas a sete pessoas diferentes e a momentos temporais também distintos, mas que se relacionam entre si, sendo a última parte um epílogo da escritora.

Não era que não soubéssemos que os soldados eram em número incrivelmente superior ao nosso. Mas o mais estranho é que isso não nos importava. Desde que a revolta começara, eu sentia uma coisa qualquer a correr-me nas veias, uma coisa tão avassaladora como qualquer exército.

Consciência.

Consciência, a coisa mais assustadora que existe no mundo.

Park Chung-hee instaurou, em 1979, a lei marcial, em resposta às manifestações que se faziam sentir no Sul do país, que indiciavam que o regime autoritarista (na prática, uma ditatura) resultante do golpe de Estado encabeçado por Park teria os dias contados. Park acabou por ser assassinado em Outubro de 1979 pelo chefe dos seus serviços de segurança, subindo, no entanto, ao poder Chun Doohwan, que partilhava os mesmos métodos firmes e autoritaristas de governação. Assim, em 1980, Chun estendeu a lei marcial a todo o país, restringiu ainda mais a liberdade da imprensa, encerrou universidades e proibiu actividades políticas, o que, naturalmente, fez agravar o clima de insatisfação com o regime, que já se manifestava fortemente. Na cidade de Gwangju, na sequência das decisões de Chun, verificaram-se manifestações estudantis, brutalmente silenciadas através do uso indiscriminado da violência, facto que resultou em milhares de pessoas mortas.

 

Han Kang dá voz a um conjunto de estudantes que vivenciaram os eventos desta época, aos seus receios e à incrível coragem que demonstraram em resistir e cuidar dos feridos e dos mortos, colocando em risco a sua própria vida. Muitos dos que sobreviveram foram sujeitos a tortura física e psicológica que deixou marcas profundamente traumáticas nas suas vidas. É também dada voz aos familiares destes, que buscavam desesperadamente por notícias suas no meio do caos e da desorganização que resultou da absurda brutalidade e desrespeito pelos corpos das vítimas deste massacre.

Todos os dias observo a cicatriz que tenho na mão. Este sítio onde outrora o osso esteve exposto, onde uma secreção esbranquiçada escorria de uma ferida putrefacta. Sempre que vejo uma vulgar esferográfica Monami, fico com a respiração presa na garganta. Espero que o tempo me arraste como a água enlameada. Espero que a morte chegue e me limpe, me liberte da memória dessas outras mortes esquálidas que assombram os meus dias e as minhas noites.

Dong-ho é a figura central deste livro, um rapaz que procura o melhor amigo entre os cadáveres de uma morgue improvisada, após terem estado numa manifestação que terminou de forma terrivelmente violenta, e em torno do qual surgem as restantes vozes deste poderoso livro, vozes que, de diferentes formas, se cruzaram no caminho de Dong-ho. Em termos literários e pessoais, o segundo capítulo (O Amigo do Rapaz. 1980) foi o que mais me impressionou.

 

Tal como referi antes, o livro termina com o testemunho da escritora, Han Kang, que, na época da revolta de Gwangju, tinha nove anos. Han Kang relata-nos a mudança de casa que a sua família se viu obrigada a fazer nessa época (mudaram-se de Gwangju para os arredores de Seul) e as conversas de preocupação que os familiares mantinham em voz baixa, fazendo também a ponte entre esta experiência pessoal e a necessidade que sentiu de relatar este acontecimento, mostrando-nos  de que forma chega à personagem central deste livro.

 

Atos Humanos é, portanto, um livro poderoso e universal, um monumento ao sofrimento dos que morreram e dos que sobreviveram com profundas e irreversíveis marcas no corpo e na alma, com reflexões fundamentais sobre a crueldade que caracteriza o ser humano. Um livro que deve ser lido por todos.

Serão os seres humanos fundamentalmente cruéis? Será a experiência da crueldade a única coisa que partilhamos enquanto espécie? Não passará a dignidade a que nos agarramos de uma ilusão para disfarçarmos, perante nós mesmos, esta simples verdade: que cada um de nós pode ser reduzido a um inseto, um animal voraz, um pedaço de carne? Que ser aviltado, magoado, esquartejado... é o destino essencial da humanidade, um destino cuja inevitabilidade a História confirmou?

09
Nov17

[LIVROS] | Orlando

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Orlando, de Virginia Woolf, é um livro que, mais de um mês depois da sua leitura, ainda mexe comigo e me deixa a pensar no seu conteúdo. Sinto que não consegui absorver a totalidade do seu significado e propósito tal é a sua grandiosidade, motivo pelo qual demorei algum tempo a escrever esta opinião. É um daqueles livros que merecerá certamente uma releitura, para consolidar algumas ideias e descobrir pormenores que me passaram ao lado.

 

Trata-se de uma biografia, onde narrador e biógrafo são um só conduzindo-nos pela vida de Orlando de uma forma magistral, com apartes, reflexões e questões relevantes, e com um ritmo de narrativa muito peculiar, ora com descrições mais pormenorizadas, ora com acelarações/mudanças de tema repentinas, tudo divinalmente conjugado, demonstrando a imensa qualidade de Virginia Woolf enquanto escritora (se dúvidas ainda existissem).

Terá o dedo da morte de poisar de tempos a tempos no tumulto da vida para que este nos não destrua? Seremos feitos de tal massa que precisemos de tomar diariamente pequenas doses de morte, sob pena de não conseguirmos cumprir a missão de viver? E que estranhos poderes serão esses que penetram nos nossos meandros mais secretos e alteram, sem que a nossa vontade seja chamada a intervir, os tesouros que nos são mais caros?

Conhecemos Orlando enquanto jovem amante de livros e vamos acompanhando os detalhes do seu desenvolvimento e crescimento enquanto homem. Assistimos à forma como se apaixona fervorosamente e ao quebrar de todas as suas ilusões com um desgosto. Na sequência deste desgosto amoroso, Orlando isola-se na sua casa de campo e, mais tarde, acaba por partir para Constantinopla, como embaixador. É aqui que se dá o acontecimento fulcral deste livro: Orlando adormece durante sete dias e, quando acorda, é uma mulher, facto que é visto com total naturalidade e sem questionamento ou explicação. Não é o processo de transformação que importa, nem tão pouco a passagem do tempo ao longo desta biografia, já que paralelamente aos trinta anos de Orlando decorrem três séculos de período histórico, assinalado pelas mudanças na monarquia, acontecimentos históricos e evolução tecnológica.

 

A importância deste livro deve-se à forma como Woolf explora as questões de dualidade de género. Para além das diferenças óbvias, são evidenciadas as características mais íntimas de cada um, as suas preocupações, pensamentos e objectivos, o que é esperado dos mesmos pela família e sociedade, uma visão bastante objectiva, pejada de comentários irónicos e com um humor extraordinário. Virginia Woolf desconstrói o que é exigido das mulheres de forma simples e descomplexada, salientando que o caminho (quer das mulheres, como dos homens) deve caracterizado pela liberdade.

Recordava como, no tempo em que era homem, exigia das mulheres que fossem obedientes, castas, perfumadas e primorosamente ataviadas. "Agora vou ter de pagar na minha própria carne esses desejos", reflectiu; "porque as mulheres não são (a ajuizar pela minha breve experiência de pertença ao sexo) obedientes, castas, perfumadas e primorosamente ataviadas por natureza. Só podem alcançar essas graças, sem as quais não gozam nenhum dos prazeres da vida, mediante a mais enfadonha disciplina. Há o penteado", pensou, "que só por si me vai roubar cada manhã uma hora; há o ver-se ao espelho, mais uma hora; há o espartilho e as rendas; o banho e o pó de arroz; há o mudar de vestido, trocando o cetim pela renda e a renda pela seda; há o ser casta todos os dias do ano..." Aqui bateu o pé com impaciência, exibindo uma ou duas polegadas da perna. Um marinheiro empoleirado no mastro, que por acaso olhou para baixo nesse instante, sobressaltou-se tão violentamente que perdeu o pé e só por um triz se salvou. "Se ver os meus tornozelos pode custar a vida a uma honesta criatura que com certeza tem mulher e filhos para sustentar, manda a mais elementar humanidade que os traga sempre cobertos", pensou Orlando. As pernas eram, porém, um dos seus maiores encantos. E pôs-se a pensar na bizarra situação a que se chegou quando a mulher é obrigada a cobrir todos os seus encantos para que um marinheiro se não despenhe do topo de um mastro.

Em 1928, Virginia Woolf demonstra que era, sem dúvida, uma mulher muito à frente do seu tempo, escrevendo um romance fundamental, com conteúdo intemporal, onde o amor aos livros e à literatura está constantemente presente.

 

07
Nov17

[LIVROS] | A História de Uma Serva

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A História de Uma Serva (The Handmaid's Tale) foi mundialmente destacado há uns meses atrás graças à adaptação que a Hulu (serviço de streaming) fez deste livro para série televisiva, série que ganhou oito Emmys, entre eles os de Melhor Série Dramática e Melhor Atriz de Série Dramática, atribuído a Elisabeth Moss. Curiosamente, foi através do Our Shared Shelf que assisti ao boom deste livro pelo Instagram e só depois tive conhecimento da série. Como já fazia parte da minha lista de futuras leituras há algum tempo, pareceu-me adequado lê-lo e depois ver a série.

 

Não poderia ter feito escolha mais acertada! Sem me querer alargar muito em relação à série, já que irei escrever um post sobre a mesma em breve, é importante referir que esta é tão espectacular e intensa, que a visualização da série antes da leitura do livro irá certamente prejudicar a experiência da leitura. É um dos casos raros em que preferi a série ao livro, provavelmente porque não o achei excelente em termos literários, mas sim pela história que conta.

 

Trata-se de uma distopia que nos faz reflectir bastante, já que, se pensarmos bem, não é um cenário assim tão improvável. Os elevados níveis de poluição resultam num decréscimo abrupto da fertilidade da população humana, ao qual se segue uma revolta levada a cabo por extremistas cristãos nos Estados Unidos da América, dando origem à instituição da república de Gileade, onde as mulheres férteis são apelidadas de Servas. Estas usam um traje característico, vivem na casa dos Comandantes (homens com cargos importantes) e o seu objectivo é engravidar e levar até ao final a sua gravidez, entregando o filho ou filha ao respectivo Comandante e Esposa, em caso de fracasso são enviadas para as Colónias, zonas de trabalhos forçados e com elevado grau de poluição. Uma vez que o homem nunca é considerado infértil, todos os meses ocorre um ritual de procriação, designado de Cerimónia, onde estão presentes os três, Serva, Comandante e Esposa.

Por causa das nossas abas, dos nossos antolhos, é difícil olhar para cima, é difícil conseguir uma visão completa, do céu, seja do que for. Mas podemos fazê-lo, um pouco de cada vez, um movimento rápido da cabeça, para cima e para baixo, para o lado e para trás. Aprendemos a olhar para o mundo em arquejos.

O resto vão descobrir ao ler este livro, à medida que Defred, uma Serva, vos elucida sobre o que se passa na Gileade, recordando também alguns momentos do seu passado. Não deixem de ler A História de Uma Serva já que este proporciona uma incrível reflexão sobre os caminhos que uma crise na continuidade da espécie humana pode tomar, levando à perda dos direitos das mulheres, que passam a ser vistas como meros objectos, cujo propósito é trazer novos seres humanos ao mundo, perdendo para isso a sua identidade, dignidade, família, posses, tudo.

Pensar pode diminuir as hipóteses de uma pessoa, e a minha intenção é durar. Sei porque é que não há vidro na aguarela de lírios azuis e por que razão a janela só abre até certo ponto e porque é inquebrável o seu vidro. Não é a fuga que eles temem. Não iríamos muito longe. São aquelas outras fugas, essas que podemos abrir em nós mesmas, com uma ponta afiada.

A minha nudez já me é estranha. O meu corpo parece antiquado. Usei mesmo fatos de banho, na praia? Usei, sem pensar, no meio de homens, pouco me importando de exibir as minhas pernas, os braços, as coxas e as costas, de que pudessem ser vistos. "Vergonhoso, imodesto". Evito baixar o olhar para o meu corpo, não tanto por ser vergonhoso ou imodesto, mas porque não o quero ver. Não quero olhar para algo que me determina de maneira tão absoluta.